Dissidente chinês cego relata fuga e suposta agressão

Chen Guangcheng conta que teve de pular oito muros, três deles com o pé machucado, para conseguir escapar de prisão domiciliar

BBC Brasil |

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O dissidente cego Chen Guangcheng , que ganhou notoriedade ao conseguir fugir de prisão domiciliar na China e buscar refúgio na embaixada americana, relatou à BBC como conseguiu escapar de sua casa, apesar de forte monitoramento da polícia.

Concessão: China diz que dissidente pode pedir permissão para estudar no exterior

Reuters
Imagem divulgada pela Embaixada dos Estados Unidos em Pequim mostra o ativista Chen Guangcheng falando ao teledone no local (02/05)
Ele ainda está em um hospital em Pequim, uma semana depois de ter deixado a embaixada dos EUA . Chen diz que está confinado em uma cama, com três ossos fraturados. À BBC, ele afirmou que sua família foi vítima de agressões violentas por parte de policiais e funcionários do governo da Província de Shandong, onde estava em prisão domiciliar.

O dissidente disse que recebeu uma promessa do governo central da China de que as supostas agressões serão investigadas. Chen também acredita que receberá permissão do governo central para deixar o país e estudar no exterior.

Chen Guangcheng - conhecido como o "advogado descalço" - é um dos ativistas mais famosos da China. Ele perdeu a visão durante a infância e não pôde completar estudos jurídicos formais, pois cegos não têm permissão para frequentar universidades no país.

O ativista ganhou notoriedade ao acusar autoridades locais de terem coagido mais de 7 mil mulheres de sua província a se submeter a abortos ou esterilizações, como parte de uma política de controle de natalidade .

Ele também prestou assessoria jurídica a fazendeiros em disputas de terras e fez campanha pela melhora no tratamento de portadores de deficiências. Sua fuga espetacular, há duas semanas, ganhou destaque internacional.

Após 20 horas fugindo, com a ajuda de amigos, ele conseguiu abrigo na embaixada americana. Também publicou um vídeo na internet pedindo que o governo chinês investigasse os abusos que sofreu. O episódio ganhou notoriedade ainda maior por acontecer na véspera de uma visita da secretária americana de Estado, Hillary Clinton, à China.

Na semana passada, Chen aceitou deixar a embaixada e foi internado em um hospital para se tratar dos ferimentos que sofreu na fuga. Do hospital em Pequim, Chen conversou com a BBC por telefone na terça-feira.

BBC: Como você está agora?
Chen Guangcheng: Estou em um hospital em Pequim, com três ossos fraturados, e não posso me deslocar livremente. Estou em uma cama.

BBC: Como estão a sua mulher e os seus filhos?
Chen: Eles estão comigo e estão todos bem.

BBC: Você está feliz de se reunir com eles?
Chen: Não tão feliz, mas foi muito bom estar com eles, porque faz muito tempo que não ficava com meus filhos.

BBC: Você pode nos contar como conseguiu fugir da casa?
Chen: (Risos) Essa é uma história muito longa, só posso falar brevemente sobre isso. Me preparei muito tempo para isso. Era observado todos os dias por muito tempo, então tive poucos segundos para conseguir escapar da vista deles (os guardas). Me mudei para um outro quarto da casa e escapei. Tive de pular muros - oito no total - e havia mais de 60 pessoas com carros do lado de fora. No quinto muro, machuquei meu pé, então depois disso não conseguia caminhar direito, e tive de rastejar pelo resto do caminho. Rastejei por alguns quilômetros, até ser recebido por um de meus amigos. Depois de 20 horas, deixei o vilarejo.

BBC: Você tinha medo de ser visto pelos guardas?
Chen: Estava muito preocupado em ser detectado pelos guardas. Se eles me pegassem, não consigo nem imaginar as consequências disso.

BBC: Você pode nos contar o quão ruim foi a experiência de ficar em prisão domiciliar?
Chen: É horrível. No começo, mais de 70 ou 80 pessoas entravam na minha casa. Certa vez, mais de dez homens fortes agrediram a minha mulher por várias horas. Eles a cobriram com um edredom e começaram a bater nela. Eram todos da delegacia de polícia ou funcionários do governo municipal. Não tinham autoridade ou permissão para fazer isso. E eles roubavam qualquer coisa que achassem de útil na minha casa, como livros, televisão ou computador. De julho a agosto, todos os dias, de manhã e de tarde, havia pessoas fazendo buscas na minha casa. Isso durou até setembro. Eles nos observavam, não importava o que fazíamos - seja comer ou descansar. Às vezes eles nos agrediam com muita violência, mas não podíamos consultar qualquer médico.

BBC: O que vai acontecer agora? Você pode deixar o país?
Chen: Acho que posso, porque várias pessoas do governo central vieram me visitar e deixaram claro que eles precisam proteger meus direitos como cidadão.

BBC: Eles falaram isso desde que você deixou a embaixada americana?
Chen: Sim.

AFP
O dissidente chinês Chen Guangcheng, que fugiu de prisão domiciliar e se abrigou na embaixada americana, é visto em hospital em Pequim (02/05)
BBC: Eles dizem que não sabiam o que acontecia com você?
Chen: Sim, é isso que eles disseram.

BBC: A sua família poderá viajar com você?
Chen: Sim.

BBC: Quando você espera que isso vá acontecer?
Chen: Eu ainda não sei, porque eu estou sem passaporte. 

BBC: Você ficou surpreso com tudo isso acontecendo de forma tão rápida desde que fugiu?
Chen: Não estou nem um pouco surpreso. Porque acho que quando coisas ilegais são expostas ao público, elas precisam ser resolvidas de forma muito rápida.

BBC: Você correu riscos enormes para você mesmo e para sua família. Valeu a pena?
Chen: É difícil dizer. Nunca me arrependi. Se tudo valeu a pena, isso vai depender de como a sociedade vai reagir.

BBC: O que você quer do seu país? O que você espera conseguir?
Chen: Só espero que nosso país respeite as leis. Eles deveriam parar de me agredir e à minha família. Espero que o governo central comece a investigar o que aconteceu, sem se importar com quem está envolvido ou com a hierarquia das pessoas. Só espero que minha família e eu sejamos recompensados. É isso que eu gostaria de ter neste momento.

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