Bin Laden queria reformar 'marca' Al-Qaeda, diz autor de livro

Antes de morrer, o líder da Al-Qaeda queria tirar a associação da organização à morte de civis, afirma Peter Bergen

BBC Brasil |

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Reuters
De acordo com autor de livro sobre a busca por Bin Laden, líder extremista buscava uma nova imagem para a A-Qaeda
Antes de morrer, o ex-chefe da rede extremista Al-Qaeda, Osama Bin Laden , queria mudar a "marca" da organização, associada à matança de civis inocentes, afirma o autor de um novo livro sobre os esforços de busca pelo líder extremista, o jornalista Peter Bergen, no dia em que a morte de Bin Laden completa um ano.

Bergen, analista de segurança da rede CNN e autor de um livro sobre os dez anos de busca pelo autor dos atentados de 11 de setembro de 2011, teve acesso a 6 mil documentos sobre a operação liberados pelo governo americano, mas ainda não publicados.

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Segundo o jornalista, os registros mostram um Bin Laden "que era ao mesmo tempo um microgerente inveterado (da rede), mas também quase em devaneio" na sua crença de que a organização conseguiria forçar uma mudança na política externa americana para os países muçulmanos por meio da força bruta.

O cabeça da Al-Qaeda recomendara à milícia Al-Shabaab, sua afiliada na Somália, que evitasse ressaltar os laços entre as duas organizações, desaprovava as ações de sua afiliada iraquiana contra minorias religiosas e aconselhava as suas facções no Iêmen a não seguir o mesmo caminho.

Em vez de um "bunker de Hitler", disse Bergen à BBC Brasil, o extremista vivia em um "esquálido complexo suburbano" em Abbottabad, no Paquistão, junto com uma dúzia de pessoas e com gastos modestos de energia e eletricidade.

'Marca' prejudicada
Em um artigo separado para a CNN, Bergen revelou parte do conteúdo dos 6 mil documentos a que teve acesso durante a produção do seu livro.

"Bin Laden entendia que a marca da Al-Qaeda estava em um profundo problema, em particular porque o grupo e seus afiliados haviam matado tantos civis", escreveu. "Al-Qaeda, 'a base' em árabe, foi como o grupo se chamou quando foi fundado no Paquistão em 1988. Agora, o líder da Al-Qaeda estava recomendando seus seguidores a evitar o uso do termo."

Em uma carta de 7 de agosto de 2010, Bin Laden chegou inclusive a aconselhar o líder da milícia Al-Shabaab, Mukhtar Abu al-Zubair, a não se declarar parte da Al-Qaeda, a fim de não despertar a rejeição de empresários no mundo árabe que "querem ajudar os irmãos na Somália".

Para o mentor dos atentados em Nova York e Washington, a reputação da Al-Qaeda foi prejudicada nem tanto pelos ataques de 11 de setembro – que, para Bin Laden, não deveriam diminuir, e sim incluir outras táticas, além de "explodir aviões".

O problema, para Bin Laden, estava nos ataques contra cristãos iraquianos pela afiliada do grupo no Iraque, que agiam sem a bênção do seu líder. "Tão negativa havia se tornado a marca Al-Qaeda que Bin Laden estava inclinado a mudar o nome do grupo", escreve Peter Bergen.

Em um memorando interno, o líder extremista observou que o presidente americano, Barack Obama, não havia declarado guerra contra o Islã ou os muçulmanos, e sim contra a organização.

"Portanto, se o nome da Al-Qaeda derivar ou traçar forte relação com as palavras Islã ou muçulmano, ou se tivesse o nome de Partido Muçulmano, seria difícil para Obama dizer isso", raciocina Bin Laden no memorando.

"Eis algumas sugestões: grupo Monoteísmo e Jihad, grupo Monoteísmo e Defendendo o Islam, grupo Restauração do Califado... grupo Muçulmanos Unidos", escreveu Bin o líder extremista.

Menos poderosa
Em seus memorandos, Bin Laden traçou uma Al-Qaeda que Peter Bergen descreve como "uma organização que entendia estar em profundo risco oriundo dos ataques com aviões não tripulados nas regiões tribais do Paquistão", que desde 2008 vinham causando enorme prejuízo à liderança da rede.

Bin Laden vinha se inclinando a aconselhar seus seguidores no Paquistão a deixar as áreas sob ataque. Uma das orientações já havia sido se movimentar apenas em dias nublados, quando a visibilidade dos satélites e aviões não tripulados americanos era prejudicada.

Para o líder extremista, a região mais segura era a província de Kunar, no Afeganistão, onde ele mesmo havia se escondido após escapar das forças americanas durante a batalha de Tora Bora, no leste do país, em 2001.

Bin Laden também dava atenção aos afiliados da Al-Qaeda no Iêmen e na África: aos primeiros, aconselhava uma boa refeição antes de partir para missões; aos outros, recomendava plantar árvores que crescessem e servissem de esconderijo contra o inimigo.

Vaidade
Essa preocupação com assuntos mundanos da parte de Bin Laden em seus últimos dias levou Bergen a descrevê-lo como um "microgerente" de assuntos internos da rede. Esta visão está de acordo com a de analistas para quem a proeminência de Bin Laden era tamanha após o 11 de setembro que a melhor proteção da rede era descentralizar seus poderes.

Mas não somente: em preparação para o aniversário de dez anos dos ataques em Nova York, ele vinha considerando abordar jornalistas como o especialista em Oriente Médio Robert Fisk, do jornal londrino Independent, ou a rede CBS, vista por ele como "menos tendenciosa" entre as emissoras americanas.

À BBC, Bergen disse que Bin Laden levava uma vida modesta e normal, em um subúrbio de Abbottabad, onde sua única excentricidade, se é que se pode dizer assim, era a vaidade.

"Ele vivia com cerca de 12 pessoas, sua mulher, seus filhos, netos, seu irmão, que o protegia. Eles viviam uma vida bastante modesta, gastando quase nada de dinheiro em combustível, sem ar-condicionado em um lugar que fica muito quente no verão, poucos aquecedores a gás em um lugar que fica muito frio no inverno", afirma Bergen.

"No quarto onde ele viveu a maioria dos seus últimos seis anos, a única coisa que encontrei foi uma loção de tintura capilar que ele usava no cabelo e na barba, muito vaidoso mesmo já bem acima de 50 anos. No banheiro, só um minúsculo toalete onde ele precisava se agachar, uma cozinha minúscula. Não era uma vida de doutor, era completamente diferente."

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