Batendo uma bolinha no Nebraska

Uma tarde de sábado de muito sol e vento. À minha frente, um campo de futebol num parque está tomado por dois times de garotos com uns 12 anos, cada grupo com seu uniforme, se enfrentando, chutando, suando.

BBC Brasil |

As crianças de um dos times vibram quando um dos garotos parte para o contra-ataque e enfia uma bola certeira num dos cantos da rede, sem chance para o goleiro.

À beira do campo, os pais observam com grande interesse o embate futebolístico. Alguns inclusive trouxeram suas cadeiras, água e alimentos.

Ao redor deles, um monte de crianças menores vai e vem, algumas também brincando com bolas de futebol.

A gritaria dos meninos do time de fora ofusca as rajadas de vento. Eles estão impacientes para ver o fim do jogo em andamento e finalmente entrar em campo.

Levar as crianças ao futebol e vê-las jogar é um programão para os pais hispânicos de Lincoln, capital do Estado de Nebraska, no coração dos Estados Unidos.

Não é novidade que o esporte não é muito popular por aqui. Compete com espetáculos de peso como o basquete da NBA ou o hóquei da NHL.

Mas, para os latinos radicados nos Estados Unidos, trata-se de uma forma de manter viva um importante elemento de suas origens.

"Culturalmente, é importante para nós que viemos de um país em que o futebol é algo com tanto destaque", diz a salvadorenha Karina Mendez, uma das organizadoras do treino de futebol com as crianças.

"No meu caso, meu pai é jornalista esportivo, locutor de rádio. Como sempre estava com meu pai nos estádios, vendo futebol, eu me sentia mal aqui, sentia que faltava algo."
Talvez para os pais a importância cultural do futebol esteja mais clara do que para as crianças, que demonstram estarem completamente adaptadsa ao mundo de Lincoln.

Pelo menos no time de fora, o que eu ouço é só inglês - com uma ou outra palavra, bem de vez em quando, em espanhol. O inglês deles é perfeitamente americano, com seu sotaque nasal característico. O inglês dos pais, em geral, não chega aos pés do inglês dos filhos.

Entre os pais encontro o colombiano Arnúbio Valencia Jimenez, um pesquisador que fala português fluente. Arnúbio morou em Brasília e está em Lincoln há dois meses fazendo pesquisas.

Pergunto a ele sobre a dificuldade de adaptação aos Estados Unidos. "Para nós, foi muito mais fácil nos adaptar a Lincoln do que ao Brasil. Não sei, acho que tem muita burocracia, algo que é próprio de nossos países da América Latina, que faz com que as famílias (de imigrantes) se adaptem mais dificilmente (ao Brasil). A gente aqui nos Estados Unidos se ajeitou mais rápido".

Nem todos são como Arnúbio. Nesta viagem pelos Estados Unidos, ficou claro que a dificuldade de adaptação é um problema para muitos imigrantes. Muitos passam a viver apenas entre eles e nunca chegam a aprender direito inglês ou entender a sociedade americana.

Manter acesa a tradição do futebol certamente deve trazer algum conforto a essas pessoas.

Me despeço do Arnúbio e do futebol para, no centro de Lincoln, me encontrar com Renata Bennett, uma brasileira de Cuiabá que mora há oito anos na capital de Nebraska e está há tanto tempo imersa neste mundo que mistura português e inglês.

Loira e alta, Renata diz que nunca teve muita dificuldade de se integrar com a sociedade local.

"Se você vem para cá como vim eu, para aprender inglês e a cultura, eles te recebem muito bem. Agora, se você analisar as pessoas que não querem aprender inglês, não querem se enturmar, você vê que há uma discriminação maior (contra eles). Eu tenho a sorte de que muitos dos americanos não percebem só de olhar para mim que não sou americana . E eu sou casada com um americano. Depois que me casei, percebi que eles me aceitaram mais."
Renata diz que os imigrantes que vêm para os Estados Unidos deveriam abraçar o novo país e tentar viver nele como um americano viveria, buscando conforto, sem passar por privações pensando no retorno ao Brasil.

"Os brasileiros que vêm para cá para trabalhar e só querem juntar dinheiro, (muitos) vivem quase como animais. Você vê 20 pessoas morando numa casa. Se você quer sair do Brasil para passar isso aqui nos Estados Unidos, não saia, não vale a pena."
Eu e Renata discordamos. Lhe pergunto se um pobre no Brasil vive em melhores condições do que um nos Estados Unidos, e ela diz entender o que quero dizer, que pode ser uma vantagem vir para cá de qualquer jeito, deixando para trás sua terra, seus amigos, seu passado e seu futebol.

Afinal, pelo menos no Nebraska, dá para levar os filhos para bater uma bolinha em um parque e, assistindo ao jogo, sonhar com os bons tempos dos sábados à tarde no Maracanã.

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