Bashir ataca Ocidente em 1ª visita a Darfur após ordem de detenção

Alnoor Azzaki. Al-Fasher (Sudão), 8 mar (EFE).- O presidente sudanês, Omar al-Bashir, acusou hoje o Ocidente de ter tentado negociar a volta das ONGs expulsas do Sudão em troca da suspensão da ordem de detenção contra ele, em sua primeira visita a Darfur após esta decisão.

EFE |

"Os países ocidentais negociaram com o Governo para que permita o retorno das 13 organizações que Cartum expulsou em troca da suspensão da ordem de detenção do Tribunal Penal Internacional (TPI)", disse Bashir diante de vários simpatizantes em Al-Fasher, capital de Darfur do Norte, no oeste do Sudão.

O presidente sudanês disse que seu país rejeita esta proposta, e pediu "a anulação, e não a suspensão", da decisão do TPI.

Esse tribunal, com sede em Haia, emitiu na quarta-feira passada uma ordem de detenção contra Bashir por supostos crimes de guerra e de lesa-humanidade cometidos em Darfur, no oeste do Sudão.

Pouco depois, o Governo sudanês rejeitou essa ordem e expulsou mais de dez organizações de assistência estrangeiras que trabalhavam na região, entre elas a Médicos Sem Fronteiras, a Oxfam e a Save the Children.

Bashir, que compareceu diante de milhares de cidadãos no centro de Al-Fasher com roupas civis e um bastão de comando, acusou esses grupos de operar como "espiões" e de não cumprir os acordos assinados com o Governo.

Segundo ele o chefe de Estado sudanês, esses grupos funcionaram como "instrumentos de países ocidentais", que queriam influenciar nas próximas eleições presidenciais e parlamentares, previstas para este ano.

Bashir, que falou de um palco montado especialmente para a ocasião, denunciou que 118 organizações estrangeiras trabalham em Darfur e recebem US$ 2 bilhões ao ano para o desenvolvimento da região, dos quais só gastam US$ 100 milhões.

"A partir de agora, não vamos permitir que isso ocorra e estamos dispostos a cobrir o vazio (econômico), se todas as organizações (estrangeiras) saírem", acrescentou Bashir, que, ao longo do discurso, foi interrompido pelos simpatizantes, que gritavam frases de condenação ao TPI e de apoio ao presidente.

Nesse sentido, Bashir advertiu também aos residentes estrangeiros que não tentem "ameaçar a segurança da nação", que não se desviem de seu papel, em vez de espionar o Sudão.

Além disso, o presidente insistiu em que seu país não respeitará a decisão do TPI.

"Rejeitamos (a decisão), vamos rejeitar e juramos por Alá, o grande, que não vamos nos render", disse Bashir, cujo país não reconhece o TPI, nem é signatário do Estatuto de Roma, que instituiu este tribunal, em 17 de julho de 1998.

O presidente sudanês convidou os responsáveis do TPI a visitar Darfur, porque "acham que, com sua decisão, vão assustar o povo sudanês. Não nos conhecem ainda e, para que nos conheçam, devem vir aqui".

Além disso, Bashir reiterou as acusações contra os líderes dos Estados Unidos, de Israel e de países ocidentais de serem "os criminosos verdadeiros" que querem ocupar Sudão de novo, e pediu que eles sejam julgados perante o tribunal internacional.

O discurso foi acompanhado de músicas sudanesas como pano de fundo, que louvavam o desenvolvimento de Darfur, e inclusive o presidente dançou ao ritmo de uma delas.

Após o fim de seu discurso, o presidente sudanês deve almoçar com as autoridades locais, antes de voltar a Cartum.

Segundo a agência oficial de notícias sudanesa "Suna", a visita de Bashir a Darfur ocorre dentro dos esforços do líder para acompanhar o programa de desenvolvimento desta região e impulsionar a paz.

Antes de fazer seu discurso, Bashir assinou um acordo com o representante de uma companhia chinesa, que ficará responsável pela construção de uma linha ferroviária no oeste do Sudão, que unirá as cidades desta região.

O conflito em Darfur começou quando dois grupos insurgentes, o Movimento de Justiça e Igualdade (MJI) e o Movimento para a Libertação do Sudão (MLS), iniciaram um levante armado, em fevereiro de 2003, contra o regime de Cartum em protesto por causa da pobreza e da marginalização dos habitantes desta região.

Desde o início do conflito, cerca de 300 mil pessoas morreram e outros 2,5 milhões tiveram que deixar suas casas, segundo cálculos da ONU. EFE az-hh-ssa/an

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