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Barracão de bêbados virtuais

Anos 50 ou início dos 60. Buate do Rio.

BBC Brasil |

Em geral, numa sexta-feira. Por volta de 11 horas da noite, um camarada de terno branco, desacompanhado, tocadíssimo, adentrava o recinto noturno. Digamos que fosse o Sacha's. Em geral, era.

Logo na porta, antes de ser levado à mesa, o indivíduo - sim, só se pode chamá-lo de "indivíduo" - dizia em altérrimo e boníssimo som, "Eu vou beber, vou comer e não vai acontecer nada."
Um frio mais intenso que o ar condicionado já incrementado percorria a casa noturna e a boca do estômago de seus freqüentadores, entretidos com o picadinho e o piano de Sacha Rubin tocando as músicas prediletas dos freqüentadores habituais.

Cada qual tinha a sua e uma das especialidades de Sacha (seu picadinho não ficava atrás daquele do Vogue) era memorizá-las. Fulano de tal era Laura, Sicrano Molambo, a hostess famosa, uma das dez mais, Blue Moon, é claro.

Em sua mesa, o indivíduo de branco, pedia uma dose dupla de uísque em voz tonitruante e repetia, "Eu vou beber, vou comer e não vai acontecer nada". Não percebera que, com sua simples presença, tudo já acontecera. Fora-se o encanto da noitada.

Esta apresentação saudosa, cheirando a mofo e perfumes caros, serve apenas de introdução ao que poderia, se eu tivesse tempo e os leitores paciência, enumerar os diversos tipos de bêbado e onde podem ser encontrados. Já fiz algo parecido em outros escritos levianos. Levianos mas sóbrios.

Há um novo bêbado na praça. Não bastasse os já existentes. Só que esse, ao contrário do que acontecia no velho Sacha's, é barrado logo na porta.

Ou melhor, diante da tela e do teclado do computador.

Mais um serviço prestado à humanidade pelo cada vez mais ubíquo e engenhoso serviço de buscas Google.

(Pequeno parêntese: googleiem Sacha's quem não souber do que estou falando. Não prometo muito, mas sempre se deve tentar.)
Um funcionário mais altruístico do que os outros, lá no Google bolou, pois bolar é quase que obrigatório na virtual e virtuosa organização, um sistema destinado a barrar na entrada os bêbados. Barrar, bloquear, tudo isso é relativo como um site de busca. Digamos que o sistema, faz com que o indivíduo, meio ou bastante alterado, pense ao menos duas vezes antes de mandar seu emailzinho. Quem de nós, depois de compor um bilhetinho eletrônico, já não digitou a tecla do "enviar", para cinco segundos depois não se arrepender amargamente? Pois é. O Google agora quer zelar por sua - minha, nossa - ressaca informática.

Batizaram de Mail Googles. Para entrar em ação tarde da noite e nos fins-de-semana. Hora e dia em que "bebia e comia e não acontecia nada" com aquele meu velho conhecido de branco, que, aliás, nunca consegui identificar direito sua posição na paisagem noturna carioca: se homem público, alto funcionário de empresa estatal, dono de cadeia de supermercados, sei lá.

Os bêbados atacam de madrugada. Cada um é um problema aparte. Isso. Deveriam eles dar uma boa capotada na calçada mesmo, num banco de um jardim qualquer (de praia também serve) e não passar perto de um computador. Se os bêbados em questão conseguiram achar o caminho de volta para casa, que curtam a carraspana roncando e babando diante da televisão ligada na sala. Amanhã de manhã, a "senhôra sua esposa" leva um papo com ele.

Voltemos a "googlar". O método barra-bêbados é simples e não envolve algoritmo nenhum. O camarada em questão simplesmente recebe a sugestão, algo forçosa, de responder a algumas perguntas rápidas antes de ter acesso à bilhetagem eletrônica. Perguntas todas a ver com a matemática. Qual é a raiz quadrada de 317, por exemplo.

Serei franco. Acho uma titica de sugestão. Primeiro lugar, porque é uma invasão de privacidade etílica. Segundo lugar, porque só 35% da humanidade é capaz, de pilequinho ou porre de cair, de responder a qualquer coisa relativa a raiz quadrada. Ou números primos. Ou aquela bobagem do "se um trem deixa a estação a tal hora a tantos quilômetros por hora e outro a...etc". Trata-se de uma tremenda bobagem e intromissão indevida nas calibrações alcoólicas de um cidadão.

Serei docemente hipotético. Digamos que eu tome umas birinaites na sexta-feira. Bateu meia-noite e eu abro o computador. Baita vontade de me comunicar com um amigo no Brasil e dizer que ele é um tremendo mau caráter. Ou excelente pessoa. Tanto faz. O problema é meu e o Google que se recolha à sua significância. Com a alma vestida de terno branco da Ducal, e com a mais poderosa voz de que ainda for capaz, bradarei para mim mesmo e à gata: "Eu vou beber, vou comer, vou mandar email e não vai acontecer nada."
Conforme o refrão daquele colunista social: ao fundo, na vitrola, Chet Baker canta Let's Get Lost.

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