Baixar preço do arroz não basta, dizem haitianos

Por Joseph Guyler Delva PORTO PRÍNCIPE (Reuters) - Quatro dias depois das medidas adotadas pelo governo para baratear arroz, motivo de violentos protestos populares, os haitianos se queixam na quarta-feira que o preço de outros produtos precisa cair também.

Reuters |

Empresários que tiveram bens saqueados ou destruídos durante os protestos disseram que vão processar o governo por não ter sido capaz de protegê-los.

Pelo menos seis pessoas morreram nas manifestações iniciadas há duas semanas em Les Cayes (sul). Os distúrbios levaram o Senado a destituir o primeiro-ministro Jacques Edouard Alexis, no sábado, sob a acusação de ter sido incapaz de estimular a produção de alimentos.

No mesmo dia, o presidente René Préval anunciou um acordo com importadores que permitirá uma redução de cerca de 15 por cento no preço do arroz.

Mas esse acordo acabou provocando incidentes violentos nos últimos dias nos mercados haitianos, já que pessoas famintas esperavam uma redução imediata nos preços, enquanto os comerciantes alegavam que antes precisam se desfazer de seus estoques comprados ao preço antigo.

'Reduzir o preço do arroz, mesmo que ligeiramente, é uma coisa boa, mas que tal os outros gêneros essenciais?', disse Melanie Previl, 33 anos, mãe de três filhos. 'Não podemos simplesmente ferver o arroz e comê-lo.'

Estima-se que 80 por cento dos 9 milhões de haitianos vivam na miséria, sendo a maioria com menos de 2 dólares por dia.

Agências humanitárias internacionais pediram o envio emergencial de mantimentos para ajudar o Haiti e outros países pobres afetados pelos distúrbios.

O preço elevado do petróleo, o aumento da demanda na Ásia, adversidades climáticas e o uso intensivo do milho para a produção de etanol nos Estados Unidos são alguns dos fatores que provocam a alta mundial no preço dos alimentos.

'Os preços do óleo, do feijão, da farinha, do trigo e do açúcar ainda estão muito altos e podem subir ainda mais', comentou Yvon Mauger, dono de uma livraria no centro de Porto Príncipe.

O presidente da Câmara Haitiana do Comércio e da Indústria, Jean Robert Argant, disse que os empresários que tiveram prejuízos com os protestos devem pedir indenizações. 'O governo tem a responsabilidade de fornecer segurança e proteção para nossos investimentos, e não o fez,' afirmou.

Préval rejeita a idéia de indenizar os empresários, dizendo que seria difícil identificar as vítimas depois de um vandalismo tão generalizado.

Entre as vítimas há não só grandes empresas, mas também centenas ou milhares de vendedores ambulantes que perderam suas mercadorias. Só no bairro de Delmas, na capital, pelo menos cem estabelecimentos foram depredados ou saqueados, segundo o prefeito Wilson Jeudi.

'Os prejuízos em termos de danos materiais somam milhões de dólares, mas os prejuízos em termos de oportunidades de investimentos são ainda maiores', disse Argant.

O deputado Jean Limongy sugeriu que abatimentos fiscais para compensar os prejuízos dos empresários.

'O governo não necessariamente tem de lhes dar dinheiro.

Acho que essas empresas deveriam ser autorizadas a operar sem pagar impostos durante algum tempo, para que possam se recapitalizar um pouco.'

A polícia disse que um homem de 45 anos foi linchado durante protestos em Jeremie (sul) nos últimos dias, elevando a seis o número de mortos nos distúrbios.

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