Autoridade Palestina se diz decepcionada com acordo para soltar Shalit

Segundo fonte do Hamas, quase 200 prisioneiros libertados serão deportados para outros países ou para a Faixa de Gaza

iG São Paulo |

A Autoridade Nacional Palestina (ANP) expressou nesta quinta-feira sua decepção em relação à parte do acordo entre Israel e Hamas para trocar o soldado israelense Gilad Shalit por presos palestinos , ao considerar que o movimento islamita não deveria aceitar a expulsão de alguns dos detidos. "Estamos muito decepcionados pelo fato de que alguns deles (presos) serão transferidos à Gaza e não poderão ficar em casa com suas famílias na Cisjordânia e outros serão expulsos", afirmou o ministro das Relações Exteriores da ANP, Riyad al-Malki ao canal de TV France 24.

AFP
Yoel, Noam e Aviva Shalit protestaram pela libertação do soldado israelense em frente à casa de Benjamin Netanyahu (25/6)

Segundo uma fonte do Hamas ouvida pela Associated Press, dos 450 prisioneiros que serão liberados na primeira fase do acordo, 272 poderão ir para a casa. Isso significa que 178 provavelmente serão deportados para outros países ou - se forem da Cisjordânia ou Jerusalém Oriental - à Faixa de Gaza, controlada pelo Hamas. O destino dos expulsos que devem ir para outros países não foi especificado.

A fonte afirmou também que Israel pressionou pela deportação dos prisioneiros, destacando que eles representariam uma segurança ao Estado judeu se voltassem às suas comunidades de origem.

O acordo divulgado na terça-feira, alcançado por intermédio do Egito, contempla a troca do soldado Shalit, em poder de grupos armados palestinos em Gaza desde 2006, por 1.027 presos palestinos. "Estamos muito decepcionados com uma parte do acordo, já que não queremos ver nenhum palestino expulso de seu próprio território por decisão de seu povo", acrescentou al-Malki. "O Hamas tomou a decisão de aceitar a expulsão de tanta gente de seus lares na Cisjordânia e de seus lares na Palestina em geral."

Al-Malki, que faz uma visita a Paris junto ao presidente palestino Mahmud Abbas, também questionou o momento escolhido para anunciar o acordo. Para ele a intenção do anúncio pode significar uma busca para " impulsionar a popularidade de Israel e do Hamas diante da Autoridade Palestina" em meio ao giro internacional do presidente Abbas para convencer os países que integram o Conselho de Segurança da ONU a apoiar o pedido de adesão palestino apresentado em 23 de setembro, passo decisivo para se tornar um Estado soberano.

A primeira fase da troca deverá ser concluída na próxima terça ou quarta-feira. O chefe do serviço de segurança interna israelense, Shin Beth, afirmou que 163 detidos da Cisjordânia serão expulsos para Gaza e 40 para outros países. Os mediadores egípcios e oficiais israelenses ainda não definiram uma data para a concretização do acordo.

Saleh Aruri, oficial do Hamas, disse que o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) pode facilitar a troca dos prisioneiros, enquanto transferem Shalit para o Egito. "Israel entregará nossos amados irmãos e irmãs", disse Aruri, para um canal local controlado pelo grupo militante. O porta-voz do CICV, Marcal Izard, afirmou que a entidade atuará "como intermediário neutro se as duas partes concordarem em pedir os serviços humanitários da organização, para facilitar a transferência de detentos libertados".

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, telefonou na quinta-feira para o chefe do conselho militar egípcio, marechal de campo Mohammed Hussein Tantawi, para agradecê-lo em nome de todos os israelenses pelos "bem-sucedidos esforços intensivos" do Cairo.

A lei israelense, que estipula um período de 48 horas para que qualquer cidadão apresente oposição formal à soltura de qualquer prisioneiro, e o feriado religioso judaico desta semana, significam que a operação provavelmente não se realizará antes da próxima terça-feira.

Gilad Shalit

Gilad Shalit está com 25 anos e é o centro de uma campanha carregada de emoção desde pouco após sua captura, em junho de 2006. Ele foi visto pela última vez, com aparência pálida e magra, em um vídeo de 2009 filmado por seus captores. É certeza que será recebido como herói em Israel.

O lado palestino também se prepara para festejar a soltura de 450 homens e 27 mulheres. Israel ocupou a Faixa de Gaza de 1967 a 2005 (saiba os principais fatos do conflito entre Israel e Palestina) , quando retirou seus colonos e tropas. Em 2007 o controle do enclave foi tomado pelos militantes do Hamas, que expulsaram o movimento palestino Fatah, com a promessa de jamais reconhecer Israel e continuar a combater "a entidade sionista".

Em algum lugar de Gaza está a cela secreta onde Shalit, sequestrado em um ataque do Hamas e de pistoleiros aliados que escavaram um túnel sob a linha de frente, é mantido prisioneiro há anos, sem visitantes, com o objetivo de extrair o máximo de concessões de Israel numa troca de prisioneiros.

A previsão é que Shalit seja levado para território egípcio, atravessando a fronteira sudoeste da Faixa de Gaza, enquanto grupos de prisioneiros palestinos são transferidos de prisões israelenses para a fronteira egípcia nas proximidades de Eilat.

Os pais de Shalit, Noam e Aviva Shalit, vêm se reunindo ao longo dos anos com autoridades na sede do CICV em Genebra. Em junho, no quinto aniversário da captura do soldado por militantes palestinos que chegaram a Israel por um túnel, o CICV divulgou um apelo público incomum, pedindo ao Hamas que fornecesse provas de que Shalit estava vivo e permitisse contato dele com sua família, como exigem as leis humanitárias internacionais.

A agência humanitária internacional já facilitou trocas anteriores de prisioneiros entre os governantes islâmicos e o Estado judaico.

Nesta quinta-feira, Khaled Mashaal esteve em Cairo em uma reunião com o chefe de inteligência egípcio Mourad Mowafi para discutir a logística da libertação. O oficial do Hamas que falou à AP disse que a primeira fase da troca incluiria sete detidos que estão há quase trinta anos em prisões israelenses. No entanto, ele não especificou quais foram seus crimes, ou se serão deportados.

Com AFP, AP e Reuters

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