Um ex-policial egípcio que escreveu um livro sobre como se defender de abusos cometidos por forças de segurança afirma que foi obrigado a deixar o Egito por temer represálias da polícia. Omar Afifi atuou como policial por 20 anos e, em março, publicou o livro Como Evitar Ser Humilhado pela Polícia (em tradução livre do árabe).

Na semana passada, a principal distribuidora do livro no Cairo foi visitada por agentes de segurança que apreenderam os exemplares.

No mesmo dia, Afifi disse temer ser alvo de uma ação policial mais violenta e embarcou para os Estados Unidos.

"Amigos que ainda tenho na polícia me alertaram que eu estava ameaçado e, então, embarquei para Nova York apenas com a roupa do corpo, um laptop e US$ 50", afirmou Afifi à BBC Brasil, por telefone, dos Estados Unidos.

Linguagem simplificada
Após deixar a polícia, Afifi estudou direito. O livro dá conselhos de como usar a Constituição egípcia para se defender de possíveis abusos.

"O meu livro foi baseado em situações reais que vivi como policial", conta Afifi. "Ele foi confiscado porque dá às pessoas todas as informações legais que elas precisam pra impedir que a polícia viole seus direitos."
O livro é escrito em árabe coloquial, mais acessível para a população de renda mais baixa do que o árabe clássico. Ele possui capítulos que oferecem dicas sobre como se defender de revistas em propriedades privadas ou de detenções.

"O livro diz ao cidadão qual o artigo que lhe dá o direito de recusar ser revistado ou detido por um policial se esses atos infringirem uma lei", afirma o autor.

Pressão "velada"
O livro não foi proibido oficialmente. Para isso, seria necessário um decreto judicial. Mas muitos no Egito afirmam que a obra está sendo alvo de uma forma velada de intimidação para que não seja vendida.

"Não me ameaçaram verbalmente, mas a mensagem da polícia naquela noite foi clara: não é para que se continue a vender o livro", afirma Madboly, o proprietário da distribuidora da obra.

O jornal em língua inglêsa baseado nos Emirados Árabes Gulf News afirma que diversas livrarias do Cairo dizem não ter recebido ameaças explícitas para não vender mais o livro.

Mesmo assim, segundo o jornal, todas as lojas ouvidas disseram que seus estoques acabaram e que não vão encomendar mais a obra, sem explicar o motivo.

Mercado negro
A proibição informal provocou um mercado negro do produto. O proprietário de uma livraria, que pediu para não ser identificado, disse ter cópias do livro para vender clandestinamente.

O preço do livro, que era de 10 libras egípcias (o equivalente a pouco menos de R$ 4) antes da ação policial, quintuplicou depois da apreensão.

Enquanto alguns lucram com o renovado interesse gerado pela proibição, o autor do livro se diz temeroso em relação a seu futuro.

"Não tenho meios de me sustentar nos Estados Unidos", afirma Afifi. "Mesmo assim, só volto ao Egito se receber a garantia do próprio presidente de que nada me acontecerá. Eu sei o que pode me esperar."
A ONG de defesa dos direitos humanos Anistia Internacional afirma que abusos e tortura são práticas comuns da polícia egípcia.

O governo egípcio, no entanto, nega que os abusos cometidos pela polícia sejam rotineiros e fiquem sem punição, e cita a condenação, no ano passado, de três políciais acusados de torturar um suspeito.

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