Autópsia de Eluana confirma morte por desidratação

Eluana Englaro morreu de parada cardio-circulatória, após uma crise de natureza eletrolítica provocada pela desidratação. Este e o resultado preliminar da autópsia na italiana de 38 anos, morta na segunda-feira de noite, após passar 17 anos em coma.

BBC Brasil |

O caso provocou uma grande polêmica na Itália. A morte de Eluana, três dias após a suspensão total de sua alimentação em uma clínica em Udine, ocorreu em meio a um debate no Parlamento de um projeto que impediria a eutanásia em casos como o dela.

Inicialmente, os médicos haviam previsto que a morte de Eluana deveria ocorrer cerca de uma semana após a interrupção da alimentação, o que teria levantado suspeitas sobre as circunstâncias em que ela ocorreu.

A lei italiana não permite a eutanásia, mas os pacientes têm o direito de recusar tratamento. Porém a lei não era clara em relação à interrupção de tratamento para pessoas incapacitadas.

Os resultados toxicológicos ainda serão divulgados dentro de, no máximo, duas ou três semanas e deverão esclarecer a suspeita de que teria sido aplicada em Eluana uma dosagem de sedativos superior àquela normalmente ministrada em um paciente naquele estado, provocando sua morte por overdose.

A princípio, para a Justiça, não existe crime, segundo afirmou o Procurador Geral da Republica Beniamino Deidda, responsável pela supervisão do caso.

Pelas dúvidas, a Ordem dos Médicos de Udine abriu uma investigação interna para avaliar o trabalho da equipe de médicos e enfermeiros da associação Per Eluana (Para Eluana), formada por onze profissionais voluntários e responsável pela aplicação do protocolo de morte de Eluana Englaro.

O resultado da autópsia coincide com a previsão do protocolo que previa cada etapa dos procedimentos médicos na paciente em vida e depois de sua morte e, em teoria, indicaria a sua correta aplicação, conforme a sentença da Corte de Apelo de Milão.

O Senado aprovou na segunda-feira uma moção que diz que "para que na Itália ninguém deva mais morrer de fome e de sede, o governo se empenha a garantir a hidratação e alimentação, como formas de sustento vitais e fisiologicamente com o fim de aliviar o sofrimento, que não podem em nenhum caso serem negadas por quem assiste aos indivíduos que não possam cuidar de si próprios".

O texto será encaminhado nesta quarta-feira para a Comissão de Saúde do Senado, que tem três semanas para estudá-lo e levá-lo ao plenário para a votação. Ele proíbe a eutanásia, o desligamento de máquinas que possa levar à morte, e veta a suspensão da alimentação e da hidratação em pacientes que não possam cuidar de si mesmos.

O artigo 32 da Constituição italiana prevê: ninguém pode ser obrigado a um determinado tratamento médico se não por disposição de lei e que a lei não pode, em nenhum caso, violar os limites impostos pelo respeito à pessoa humana.

O primeiro-ministro Silvio Berlusconi, durante os momentos mais dramáticos do caso Englaro, acusou os médicos da italiana. "Não compreendo como aqueles que trabalham para salvar vidas possam se empenhar em uma ação que leva, certamente, à morte através da crueldade como suspender a alimentação e a hidratação em um organismo", disse.

O governo corria contra o tempo para aprovar uma lei que impedisse a interrupcao da terapia vital. Um decreto-lei, de aplicação imediata, publicado na sexta-feira passada, foi vetado pelo presidente Giorgio Napolitano por ser inconstitucional.

O premiê o transformou então em projeto de lei, mas para entrar em vigor ele deveria ser aprovado pelo Parlamento. Eluana morreu durante a sessão do Senado que discutia o texto final.

Os pais de Eluana, Beppino Englaro e Saturna Englaro, abraçaram o corpo da filha pela última vez na terça-feira, na capela do hospital Santa Casa da Misericórdia, antes da autópsia.

Eles pretendem cremar o corpo da filha, mas encontram resistências dentro da família.

Durante os momentos finais o drama dos Englaro dividiu a opinião pública italiana.

Os pais sofreram ataques públicos de deputados e senadores, de jornalistas e de cardeais do Vaticano. O pai chegou a ser chamado de assassino.

A morte da filha coincidiu ainda com o lançamento de um livro sobre o caso escrito pelo próprio Beppino Englaro.

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