Ausente, Polanski conquista público no Festival de Berlim

Gemma Casadevall. Berlim, 12 fev (EFE).- O Festival de Berlim se curvou hoje perante Roman Polanski, em prisão domiciliar na Suíça por uma pendência com a Justiça dos Estados Unidos, e recebeu The Ghost Writer, que concorre ao Urso de Ouro, como uma homenagem ao diretor ausente.

EFE |

O evento precisava de um trio de astros no tapete vermelho e hoje o teve, com Ewan McGregor, Pierce Brosnan e Olivia Williams. Fora isso, um bom thriller político com a agência de inteligência americana (CIA) e políticos manipuláveis é algo que sempre cai bem em um festival.

"É um mestre, o mestre que extrai de nós o máximo rendimento artístico", afirmou Mcgregor, em elogios a um diretor que, como conta, às vezes "atentou contra seu ego de ator" e outras "foi como uma mãe". "Amo Roman", completou.

"Trabalhar com ele é algo intenso, muito intenso, como foi toda sua vida", afirmou, por sua vez, Pierce Brosnan, que lembrou ter recebido com "consternação" a notícia da detenção do diretor.

A equipe de "The Ghost Writer" ("O escritor fantasma", na tradução livre) parecia ter combinado cobrir o diretor Polanski de elogios e falar apenas vagamente sobre suas questões com a Justiça dos EUA, onde é acusado de abusar de uma menor em 1977.

"Não comentarei a situação de Roman. Este não é o lugar nem o momento. Mas o fato de que não está aqui, presidindo esta conferência, entre nós, é algo muito raro para todos", resumiu Robert Harris, autor do best-seller em que o filme se baseia.

No momento da detenção, no ano passado, o filme estava praticamente acabado, embora parte da pós-produção tenha sido feita com Polanski já em prisão domiciliar, na Suíça. "Tínhamos que acabar o filme como fosse, para estar aqui, no Festival de Berlim", afirmou Harris.

"The Ghost Writer", com Ewan Mcgregor no papel do escritor das memórias de um ex-premier britânico envolvido em um escândalo, e Brosnan brincando de um "sou e não sou" Tony Blair, foi recebido como o que é: um bom filme, de um mestre da direção e baseado em um best-seller.

Para Mcgregor, o papel parece ter caído como uma luva. Já Brosnan caminha no filme entre o pseudo-Blair e a pose de James Bond, que ainda não conseguiu abandonar.

Williams, por sua vez, é a esposa fria, que prefere seguir manipulando a fazer explodir um casamento que seguramente jamais funcionou.

Trechos de ironia - "estou cercado de pacifistas que querem me assassinar", fala Mcgregor, pressionado por manifestantes contra a Guerra do Iraque às portas da sede Governo -, uma casa luxuosa de pedra natural e madeiras seletas no melhor estilo Bauhaus e, finalmente, a maestria de Polanki, que ninguém se atreve a contestar, dão contorno ao filme.

Outro escritor, porém muito diferente do de Mcgregor, que também aparece entre filmes em concurso é Allen Ginsberg, poeta cujo famoso "Howl" o levou a tribunais. Nos EUA dos anos 50, a obra foi considerada obscena.

Tão ou mais difícil que explicar em prosa um poema parece tentar levá-lo ao cinema. Rob Epstein o tenta, com James Franco interpretando o poeta que entreteve a geração "beat" com recitais de poesia "obscena".

O filme percorre vários cenários e técnicas: do branco e negro entre aromas de cigarros e jazz ao divã do psicanalista, à história em quadrinhos como recurso para modelar os delírios ditos obscenos de Ginsberg, a seus sucessivos namorados e namoradas, além do processo contra o artista.

A cinebiografia de Ginsberg acabou engolido pelo filme de Polanski. Se no dia de abertura, René Zellweger, como membro do júri, salvou a honra do tapete vermelho com sua overdose de encantamento - e decote - debaixo de neve, hoje o trio de "The Ghost Writer" dominou o Festival de Berlim. EFE gc/rr

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