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Ausente, Lula diz a Davos que crise não serviu para repensar economia

Mesmo ausente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandou, por meio do chanceler Celso Amorim um recado duro ao Fórum Econômico Mundial de Davos nesta sexta-feira, ao dizer que não há sinais de que a crise tenha servido para repensarmos a ordem econômica mundial. O Fórum deste ano tem como mote a palavra de ordem Repensar.

BBC Brasil |

Redesenhar. Recriar", refletindo a esperança de que o mundo possa emergir da crise econômica tendo aprendido como evitar os erros que precedem as bolhas financeiras - a última, a das hipotecas de alto risco (subprime), que trouxeram a economia mundial abaixo.

No entanto, disse Lula, a ordem econômica mundial, com "seus métodos, sua pobre ética, seus processos anacrônicos", continua a mesma. "Quantas hecatombes financeiras teremos de suportar até decidirmos fazer o que é mais óbvio e correto?"
As palavras do presidente foram lidas pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, para uma plateia relativamente vazia no principal auditório do Fórum Econômico Mundial, que concedeu a Lula o prêmio Estadista Global.

Receita
Lula não ofereceu uma resposta direta ao seu desafio, mas, como o Brasil tem sido apontado como uma das vedetes do Fórum por resistir à crise e ainda exibir indicadores sociais animadores, ofereceu como exemplo as políticas de seu governo.

"O Brasil provou aos céticos que a melhor política de desenvolvimento é o combate à pobreza", disse. Mais adiante, repetiu a mesma nota em variação: "Na crise, ficou comprovado que são os pequenos que estão criando a economia de gigante do Brasil."
Lula até evocou o período da Grande Depressão, nos anos 1930, superada nos Estados Unidos com um plano do então presidente Franklin Roosevelt de fortalecer a renda dos trabalhadores para movimentar a economia.

"O principal segredo do sucesso do Brasil é acreditar e apoiar o povo, os mais fracos e os pequenos", afirmou Lula, em sua analogia.

"Foi com a força motriz que Roosevelt recuperou a economia americana depois da Grande Crise de 1929, e foi com ela que o Brasil venceu, preventivamente, a última crise internacional."
Prêmio
Lula foi a primeira personalidade a receber do Fórum Econômico Mundial o prêmio de Estadista Global, uma homenagem que a organização concede pela primeira vez. Amorim recebeu a honraria das mãos do ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan.

O presidente do Fórum, Klaus Schwab, lamentou a ausência de Lula, mas ressaltou a participação de delegações de empresários, ONGs, organizações e do governo brasileiro nos eventos de Davos.

"Gostaríamos de dizer o quanto sentimos falta dele (Lula) aqui, mas, por outro lado, o Fórum tem sido privilegiado em sua longa tradição de receber uma forte liderança empresarial do Brasil e também de seu governo", disse Schwab.

A única vez que Lula compareceu ao Fórum de Davos foi em 2003. Tinha acabado de ser eleito e queria mostrar aos investidores estrangeiros que não era, como disse à época, um "bicho-papão" da extrema-esquerda.

Após aquela participação, chegou mesmo a brincar, dizendo a jornalistas que ter marcado presença em Davos não havia "tirado pedaço" dele nem dos participantes do Fórum.

Lula fez alusão a esse período em seu discurso. "(Em 2003) o mundo nos olhava mais com dúvida que com esperança. O mundo temia pelo futuro do Brasil, porque não sabia que rumo nosso país tomaria sob a liderança de um operário, sem diploma universitário, nascido politicamente no seio da esquerda radical."
"Sete anos depois, posso olhar nos olhos de vocês e nos do meu povo e dizer que o Brasil fez a sua parte", disse Lula em seu discurso, enumerando a seguir alguns sucessos de seu governo, entre eles o de tirar milhões de brasileiros da pobreza absoluta e colocar o país no caminho de se tornar a quinta economia mundial.

"Sei que não é exatamente a mim que estão premiando, mas a mim e ao esforço do povo brasileiro", disse.

Para o presidente, é comum ler em jornais e publicações que "o Brasil está na moda". Lula disse que o termo é "simpático mas inapropriado".

"O modismo é coisa fugaz, passageiro, e o Brasil quer ser e será um ator permanente no cenário de um novo mundo."
Cutucões
O presidente também aproveitou a ocasião para cutucar, de forma vaga, os poderosos dentro e fora do país, acusados de elitismo.

"Historicamente, quase todos os governantes brasileiros governaram apenas para um terço da população. Para eles, o resto era peso, estorvo, carga. Falavam em arrumar a casa, mas como é possível arrumar um país deixando dois terços de sua população fora dos benefícios do progresso e da civilização?"
"Nós concluímos que só havia sentido governar se fosse para todos. E que aquilo que antes era estorvo era, na verdade, força, reserva, energia para crescer."
Lula disse que, se por um lado, "ninguém pode negar que o Brasil melhorou", o mesmo não se pode dizer do mundo nos últimos sete anos.

"Podemos dizer que o mundo melhorou? Que houve diminuição das desigualdades, das tragédias, da pobreza, mais respeito ao ser humano e ao cidadão?", questionou
"Posso imaginar a resposta que sai do coração de cada um, porque sinto a mesma perplexidade e a mesma frustração com o mundo em que vivemos", disse, lembrando as guerras, a destruição do meio ambiente e o que chamou de "compaixão hipócrita" da humanidade assistindo a tragédias naturais e humanas.

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