Ausência de medidas de prevenção de terremotos causa polêmica na Itália

O terremoto que arrasou o centro da Itália e deixou mais de 200 mortos gerou nesta terça-feira uma grande polêmica pela violação ou falta de leis e medidas antissísmicas na península.

AFP |

"Um terremoto como o registrado na segunda-feira na Itália, se tivesse ocorrido na Califórnia, nos Estados Unidos, não teria causado morte alguma", admitiu Franco Barberi, presidente da Comissão de Altos Riscos.

O desabamento de importantes prédios públicos, como a prefeitura de L'Aquila, a capital da região dos Abruzzos, a cidade mais afetada, assim como do hospital e várias escolas, construídos aparentemente sem levar em conta as normas antissísmicas, alarmou arquitetos e especiaistas.

"Até mesmo casas novas desabaram", constatou o prefeito de L'Aquila, Massimo Caliente.

Para Barberi, o problema na Itália é a qualidade das construções novas e não tanto as edificações antigas, de pedra, construídas na época medieval, e que também desabaram.

Vários jornais italianos, entre eles o econômico Il Sole 24 Ore, denunciaram a falta de aplicação das medidas antissísmicas, congeladas desde o ano de 2005.

"É absurdo que o hospital de L'Aquila tenha sofrido tantos danos a ponto de ficar irrecuperável", criticou Paolo Rocchi, professor de Consolidação de Edifícios Históricos da Universidade La Sapienza de Roma.

"Não conheço o orçamento do hospital, mas uma estrutura em concreto armado tinha que resistir", protestou Rocchi.

Para muitos, a violação das normas antissísmicas, sua falta de aplicação e controle geraram a atual situação.

"A entrada em vigor do decreto antissísmico é adiada todos os anos", enfatizou o jornal.

A Itália, que figura entre os países com maior movimento sísmico no mundo, "não aplica regras para a segurança de seus prédios", afirma o jornal.

Segundo as estimativas publicadas pelo jornal Il Corriere della Sera, entre 75.000 a 80.000 edifícios públicos da Itália devem ser submetidos a obras de reforma, 22.000 escolas se encontram em zonas de perigo sísmico, das 16.000 são de alto risco.

"Se não se investir na segurança dos prédios, cada tremor causará mortos", denunciou Gian Michele Calvi, professor de Construção em zonas sísmicas da Universidade de Pavia (norte).

O Conselho Nacional de Arquitetura reclamou um plano urgente para a segurança de amplos setores de inúmeras cidades italianas.

Na véspera, um pesquisador italiano do Laboratório de Astrofísica de Gran Sasso afirmou ter previsto o terremoto, em entrevista ao Corriere della Sera.

Giampaolo Giuliani teria lançado há um mês o alerta de um terremoto iminente na região de Abruzzos, sem que as autoridades tenham levado sua advertência em consideração.

O pesquisador afirmou ainda que os tremores podem ser previstos, desmentindo todos os especialistas na área.

"Há 10 anos conseguimos prever tais tragédias a 100 ou 150 quilômetros de distância. Há três dias notamos um aumento de radônio acima do limite de segurança", assegurou. O radônio é um gás radioativo que acompanha todo terremoto, explicou.

"O aumento desses níveis anunciam tremores fortes", afirmou Giuliani.

As declarações do pesquisador geraram polêmica na Itália, já que a "profecia" de Giuliani havia sido ignorada pelo chefe da Defesa Civil, Guido Bertolaso, e tachada de "imbecilidade".

No dia 29 de março, Giuliani anunciou que estava prestes a ocorrer em poucos dias um "terrível" terremoto na região de Abruzzos, o que desencadeou pânico entre os cidadãos da pequena cidade de Sulmona, fazendo com que Bertolaso tivesse que fazer um apelo à calma.

O terremoto não ocorreu na época, e sim uma semana depois.

O instituto de astrofísica informou em um comunicado na segunda-feira que Giuliani é "um colaborador técnico, sem título universitário" e que suas pesquisas são feitas a "título pessoal".

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