Por Peter Graff e Patricia Zengerle CABUL/WASHINGTON (Reuters) - Aumentou nesta segunda-feira o tom da guerra retórica entre o presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, e a Casa Branca, com os Estados Unidos lamentando o fracasso de suas tentativas para acalmar a situação.

Karzai reiterou as acusações feitas por ele na semana passada de que o Ocidente teria cometido fraude eleitoral no Afeganistão, e pareceu acentuar ainda mais suas críticas ao citar especificamente os Estados Unidos como responsáveis.

A Casa Branca se disse frustrada em nome do público norte-americano, e evocou o sacrifício feito pelas famílias que enviaram seus entes queridos para lutarem no Afeganistão. Há mais de 120 mil soldados ocidentais no Afeganistão, sendo mais de 80 mil norte-americanos, número que pode subir 20 mil neste ano.

As novas declarações de Karzai sugerem que as críticas da semana passada foram mais do que uma explosão isolada de fúria, e que ele pode estar buscando uma política deliberada de se distanciar de seus apoiadores ocidentais.

Karzai telefonou na sexta-feira à secretária norte-americana de Estado, Hillary Clinton, para tentar acalmar os ânimos, mas Robert Gibbs, porta-voz da Casa Branca, afirmou que desde então a situação "obviamente não melhorou nada."

"Os comentários são perturbadores, e a substância dos comentários simplesmente não é verdadeira", disse Gibbs.

"Em nome do povo norte-americano, estamos frustrados com as declarações. Acho que famílias de todo este país têm visto seus entes queridos partirem para muito longe para servirem bravamente às nossas Forças Armadas e para ajudar um país a estabelecer a paz e a segurança."

Gibbs disse que a visita de Karzai a Washington, prevista para 12 de maio, está mantida, e que os Estados Unidos continuarão trabalhando com ele, embora adotando parâmetros que o seu governo deve cumprir. Acrescentou que as críticas vindas de Cabul não devem afetar a decisão do Congresso sobre a liberação de verbas para a guerra.

Karzai foi reeleito no ano passado num pleito marcado por suspeitas de fraude, mas na semana passada ele declarou que estrangeiros haviam cometido subornos e ameaças durante o processo eleitoral.

Numa entrevista nesta segunda-feira à rede BBC, Karzai pareceu pela primeira vez atribuir a culpa das fraudes eleitorais especificamente aos Estados Unidos, e não ao Ocidente como um todo.

"O que eu disse sobre a eleição era tudo verdade, não vou repetir, mas era tudo verdade", afirmou. O entrevistador da BBC, então, perguntou: "Que os Estados Unidos cometeram a fraude?". "Foi exatamente o que aconteceu", respondeu o presidente. "Mencionei os elementos que fizeram isso."

Durante a entrevista, ele cobrou respeito pela soberania afegã, ecoando uma declaração que havia feito no domingo em Kandahar. "O Afeganistão será consertado quando seu povo confiar que o seu presidente é independente (...), quando seu povo confiar que o governo é independente, não um fantoche", declarou ele a líderes locais.

Karzai tinha uma boa relação pessoal com o ex-presidente dos Estados Unidos George W. Bush, o que nunca aconteceu em relação ao seu sucessor Barack Obama.

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