O anúncio do governo de que poderá recorrer à força para controlar as regiões que se opõem ao projeto do presidente Evo Morales gerou mais confusão na crise boliviana, que também se radicaliza pela convocação do departamento de Chuquisaca para um referendo autonômico que incomoda La Paz.

O vice-presidente Alvaro García Linera - presidente em exercício em função da viagem de Evo Morales à Líbia e ao Irã - advertiu, no sábado, que poderá "usar a força pública e a justiça" nas regiões rebeldes, onde foram registrados focos de violência política.

O vice-presidente denunciou que a resistência começou a "gestar um processo de radicalização fascistóide e criminoso" que seria o princípio da "gestação de um grupo terrorista".

Ele criticou o que aconteceu em Santa Cruz, a região mais rica da Bolívia e epicentro da oposição a Morales, onde opositores se chocaram, na sexta-feira, com simpatizantes de Morales, com um saldo de vários feridos.

Outro foco de violência política ocorreu na localidade de Villamontes, no sudeste, onde governistas e opositores se enfrentaram com pedras e pedaços de pau.

Esses distúrbios surgiram após a decisão do Executivo de convocar um referendo, por decreto, para aprovar uma nova Carta Magna.

Os líderes da oposição, que está concentrada nos departamentos de Santa Cruz, Beni, Pando, Tarija e Chuquisaca, destacaram que a posição do governo de utilizar a força pública não os amedrontará e que buscarão, de todas as formas, frear a consulta.

"Não é com ameaças, nem com essa forma de governar, com que os ditadores da vez acham que estamos acostumados, que vão nos amedrontar", afirmou o segundo vice-presidente do poderoso comitê cívico-empresarial de Santa Cruz, Roberto Gutiérrez, citado pelo jornal "La Razón".

O dirigente civil declarou que "faremos o que tivermos de fazer para evitar que nos imponham uma Constituição que os bolivianos não querem".

As cinco regiões rebeldes estão agrupadas no chamado Conselho Nacional Democrático (Conalde), que convocou uma reunião, na terça-feira, em Santa Cruz, para assumir uma decisão em bloco sobre a situação da Bolívia.

Hoje, o vice-presidente pediu aos governadores do Conalde que não permitam que a violência se apodere do país e que sejam as urnas "que definam de uma vez qual posição tem maior apoio".

O governo convocou para 7 de dezembro um referendo, no qual deve ser aprovada uma Carta Magna considerada ilegítima pelas regiões, devido a uma série de irregularidades ocorridas em sua aprovação, no ano passado, por uma Assembléia Constituinte sem a presença da oposição.

Em paralelo, será realizado um referendo para definir a máxima extensão das propriedades privadas (entre 5.000 e 10.000 hectares), o que se torna um enorme problema para os grandes proprietários agropecuários das regiões de planícies, que são as que protestam.

Neste domingo, García Linera afirmou que, na nova Carta Magna, "a propriedade privada está garantida", embora anule "o latifúndio improdutivo". Essa Constituição, completou o vice, "define um novo modelo econômico que acaba com os privilégios".

jlv/tt

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