Aumenta a pressão internacional para que Mianmar aceite ajuda externa

Autoridades estrangeiras começaram a chegar nesta quarta-feira a Mianmar com o objetivo de pressionar a junta militar que governa o país a liberar a entrada das equipes de ajuda internacional.

AFP |

O primeiro a desembarcar foi o comissário europeu de Desenvolvimento, Louis Michel.

"O comissário acredita que permanecerá por dois dias em Mianmar e pretende se reunir com autoridades birmanesas", informou em Bruxelas seu porta-voz, John Clancy.

Michel deverá se reunir com membros das organizações de ajuda humanitária e espera poder viajar para a região mais afetada pelo ciclone.

A fome e as doenças ameaçam dois milhões de sobreviventes, que continuam sem contar com quantidades suficientes de comida, água e abrigos quase duas semanas depois da tragédia, enquanto as novas chuvas registradas durante a noite agravavam a situação.

"As fortes chuvas previstas para Mianmar projetam o pior cenário imaginável", advertiu nesta quarta-feira a Federação Internacional da Cruz Vermelha.

Desabrigados do delta do rio Irrawaddy, onde o Nargis, que deixou 62.000 mortos e desaparecidos há 11 dias, apagando do mapa vilarejos inteiros, afirmaram que o governo não forneceu ajuda alguma.

Algumas fontes ocidentais chegam a citar 100.000 mortos.

Os generais no poder, que desconfiam da maior parte dos países estrangeiros, aceitaram as doações internacionais de material humanitário, mas se negaram a autorizar a entrada da grande maioria dos especialistas estrangeiros, necessários para supervisionar a complicada operação de socorro.

"Em um desastre é necessário que haja uma resposta incrivelmente rápida e organizada, mas não é o que temos", afirmou Chris Lom, da Organização Internacional pela Migração (OIM), após uma reunião de grupos humanitários na vizinha Tailândia, onde dezenas de especialistas continuam aguardando uma permissão de entrada em Mianmar.

"Em termos de resposta rápida, talvez já seja tarde demais", acrescentou.

Ainda é aguardada a chegada do primeiro-ministro tailandês, Samak Sundaravej.

O regime militar birmanês, que desde 1962 dirige o país com mão-de-ferro, afirma que não precisa "no momento" de especialistas humanitários estrangeiros.

Por vários dias, a televisão estatal omitiu as cenas chocantes de desespero vividas no devastado delta do Irrawaddy para exibir em seu lugar imagens dos generais entregando água e alimentos a cidadãos agradecidos.

O regime também dificultou as condições de acesso dos jornalistas à região, o que torna ainda mais difícil a chance de se ter uma noção real do caos no sudoeste do país.

Mas os jornalistas que conseguiram ter acesso à região relatam cenas de miséria e desespero. As novas chuvas estão destruindo os abrigos improvisados, a pouca comida disponível está estragando e muitos temem que a tragédia se agrave.

"O arroz que tínhamos já foi molhado pelas chuvas. Não é muito bom para comer", afirma Thin Thin, de 22 anos, sentada em uma precária cabana feita com pedaços de palmeiras, seu único refúgio desde que o ciclone destruiu sua casa.

A ONU advertiu nesta quarta-feira que um novo ciclone pode estar se formando sobre Mianmar.

O presidente americano, George W. Bush, e o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, se juntaram às críticas.

Adotando uma postura pouco freqüente para um chefe da ONU, Ban afirmou na segunda-feira que a situação chegou a um "ponto crítico" e que o governo birmanês "tem que colocar em primeiro lugar as vidas da população".

Na terça-feira, sua porta-voz Michele Montas afirmou, na sede da ONU em Nova York, que Ban não ainda não havia conseguido entrar em contato com as autoridades birmanesas, apesar de ter tentado durante dias.

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