Atores com aids tentam derrubar preconceitos em festival no Uzbequistão

Ignacio Ortega. Moscou, 9 mar (EFE).- O Uzbequistão, um dos países do mundo com pior histórico em matéria de direitos humanos, receberá, nesta segunda-feira, um festival de teatro com atores portadores de aids e que interpretarão obras criadas especialmente para a ocasião.

EFE |

"No palco não são doentes de aids, mas simplesmente atores.

Querem romper a barreira da discriminação social", assegurou à Agência Efe o dramaturgo e organizador do festival Status Plus Yuri Bartenev.

Os atores portadores do Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) protagonizarão, em um teatro de Tashkent, peças de conteúdo social criadas para a ocasião por autores de Uzbequistão, Cazaquistão e Belarus.

"Os temas são muito atuais no mundo todo. Trata-se da discriminação e do medo de ser rejeitado se alguém confessa que contraiu o vírus. São histórias reais", ressaltou.

Os doentes, entre os quais há tanto menores como adultos, estarão acompanhados no palco por outros atores não portadores do vírus, e, por isso, o espectador não conseguirá identificar aqueles que têm o HIV.

"Adivinhem quem tem aids. Não poderão. Essa é a ideia. Todos somos iguais", acrescentou.

Bartenev, de 35 anos, é um forte defensor "da arte como tratamento" tanto para os protagonistas quanto para os espectadores.

Por isso, tem a intenção de realizar anualmente este festival, que espera que atraia cada vez mais público e, previsivelmente, o apoio de outros países.

"O teatro une as pessoas, solidariza. O público sofre também quando vê que os protagonistas passam mal", afirmou.

Os nove atores protagonistas portadores de aids, que, em sua maioria, contraíram a doença devido ao consumo de drogas, perceberam, com a ajuda do teatro, que, enquanto houver vida, há esperança.

"O teatro também é como uma droga", acrescentou.

O dramaturgo conta que teve a ideia de criar um grupo teatral que incluísse doentes de aids quando um amigo foi infectado.

Ele decidiu, então, formar uma companhia com atores com aids que representaria obras que ajudassem a sociedade a "entender o que é a aids e a aceitar os infectados", e também chamar a atenção dos mais jovens para a necessidade de tomar precauções.

"Queremos mudar a sociedade uzbeque. Tenho muitas esperanças.

Afinal de contas, o teatro é uma arte social", afirmou, consciente de que o Uzbequistão é considerado pelas organizações de direitos humanos um dos países mais repressores do mundo.

Bartenev acredita que o festival terá uma "grande ressonância", mesmo que as obras sejam representadas em um teatro pequeno com capacidade para 180 pessoas.

No manifesto postado na internet, a companhia teatral proclama que "a arte não conhece fronteiras ou raças" ou "a diferença entre um HIV positivo e HIV negativo".

"As autoridades nos deram o sinal verde. Nunca antes havia sido realizado um festival internacional (pela procedência das obras) com atores com aids", indica.

O organizador assegura que o Governo uzbeque lhes permitiu trabalhar com liberdade, apesar de não tê-los ajudado financeiramente.

"Não houve censura. Deram o sinal verde, mas não dinheiro. O festival é financiado por atores, amigos e parentes", insiste.

Bartenev reconhece que a aids se transformou em epidêmica no Uzbequistão e na região da Ásia Central em geral, em grande medida por culpa das drogas que chegam à região procedentes do Afeganistão.

"O presidente, Islam Karimov, assinou uma resolução em dezembro de 2008 para combater a aids com todos os meios possíveis a nosso alcance, incluindo o teatro", ressaltou.

Segundo organizações internacionais, o Uzbequistão foi palco, no começo do século, de um dos mais recentes surtos de aids, doença que afeta principalmente homens com menos de 30 anos.

Atualmente, a Ásia Central é a região do mundo, incluindo a África Subsaariana, onde a aids se propaga mais rapidamente. EFE io/db

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