Ataques contra Obama alimentam debate sobre racismo nos EUA

O crescimento do número de ataques pessoais contra Barack Obama, como um representante vociferando você mente no meio de um discurso do presidente americano no Congresso, reacendeu o debate sobre o racismo latente nos Estados Unidos.

AFP |

O próprio ex-presidente americano Jimmy Carter admitiu essa realidade, ao afirmar que as críticas feitas de forma violenta nos últimos dias contra o presidente são fruto de racismo.

"Acho que boa parte da intensa demonstração de animosidade em relação ao presidente Barack Obama é baseada no fato de que ele é negro, é afro-americano", afirmou Carter, falando ao canal NBC.

"Eu morei no sul e vi o sul cruzar um longo caminho. Mas a tendência ao racismo ainda existe e acho que voltou à superfície por causa da crença de muitos brancos, não apenas no sul, mas como em todo o país, de que afro-americanos não são qualificados para liderar este grande país".

"É uma circunstância abominável, e me entriste e preocupa profundamente", acrescentou Carter.

A escritora chilena Isabel Allende, residente nos Estados Unidos, também declarou que oposição a Obama evidencia um racismo oculto do qual não se fala no país.

"A eleição de Obama foi uma coisa fascinante, mas há muito racismo subliminar, oculto neste momento nos Estados Unidos na oposição a Obama", afirmou.

"Nunca se menciona a raça, mas há um elemento racista muito forte, do qual não se fala muito, mas existe, já que há muitas pessoas, principalmente mais velhas, de direita, que foram criadas num país segregado, muito racista, e a ideia de ver uma família como a de Obama na Casa Branca os irrita profundamente", acrescentou.

Os analistas concordam que a oposição ao primeiro presidente negro da história do país, que cresceu muito nos últimos meses com o projeto de reforma do sistema de saúde, não é motivada apenas pela política, também se dá pela cor de sua pele.

"Alguns americanos ainda não engoliram a eleição de Obama à presidência dos Estados Unidos", comentou o representante democrata Charles Rangel.

Para Colbert King, editorialista do Washington Post, esta parte da população representa um perigo. "Há algo ruim no país, um ódio dirigido a Barack Obama, o primeiro presidente negro do país", escreveu.

Apontados por alguns como os principais culpados pela propagação deste sentimento, os conservadores alegam que os democratas sempre agitam o fantasma do racismo quando querem cortar uma crítica pela raiz.

Os democratas "jogam a carta da intimidação", acusou Brendan Steinhauser, coordenador da rede FreedomWorks, responsável pela organização da primeira grande manifestação contra a reforma do sistema de saúde, no fim de semana passado. Para desmoralizar a oposição, "basta chamá-la de racista ou homofóbica", afirmou.

A maioria dos americanos que se manifestaram sábado em Washgington contra a reforma desejada pelo presidente "é formada por pessoas contrárias à ingerência do Estado" em sua vida privada, observou Steinhauser.

"A simples ideia da introdução do fator racial no debate é ridícula", encerrou.

No entanto, durante o protesto de sábado, vários manifestantes ergueram cartazes mostrando Obama com as feições do Coringa, o sinistro personagem do filme Batman. Outros acrescentaram ao retrato do presidente um bigode semelhante ao de Hitler.

"É evidente que estas pessoas tentaram mostrar Obama como uma pessoa de fora, cujo objetivo seria entregar o país aos estrangeiros", avaliou Gary Weaver, professor de comunicaçção na American University de Washington.

Entretanto, quando a violência verbal chega a tal ponto, surge o fantasma da violência física.

No mês passado, o Southern Poverty Law Center, um órgão que monitora os grupos extremistas, publicou uma pesquisa mostrando a resurgência dos movimentos "patrióticos" armados, muito populares nos Estados Unidos nos ano 90. Em abril de 995, o militante de extrema direita Timothy McVeigh colocou uma bomba em um prédio de Oklahoma City, matando 168 pessoas.

A Casa Branca, por sua vez, tenta minimizar a questão do racismo, algo que Obama conseguiu fazer muito bem durante a campanha presidencial do ano passado.

"Não acho que o presidente pense que as pessoas estejam irritadas com a cor de sua pele", respondeu Robert Gibbs, porta-voz da Casa Branca, a uma jornalista da CNN que lhe perguntara se ele achava que os ataques contra Obama tinham algum componente racista.

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