Ataque a Berlusconi provoca exame de consciência na Itália

Por Philip Pullella ROMA (Reuters) - Os italianos se perguntavam na segunda-feira se a grave agressão da véspera sofrida pelo premiê Silvio Berlusconi foi provocada pelos vários meses de escalada da tensão política, da troca de insultos e do clima de ódio no país.

Reuters |

Berlusconi foi hospitalizado no domingo com vários dentes quebrados, fratura no nariz e com cortes no rosto depois de ter sido atingido por uma estatueta atirada por um homem com problemas mentais, enquanto distribuía autógrafos ao final de um comício.

Um boletim médico divulgado nesta segunda-feira afirma que não há grandes temores sobre o estado de saúde de Berlusconi, mas que o premiê italiano continuará no hospital até pelo menos terça-feira devido a fortes dores de cabeça e no rosto e pela perda de quase um litro de sangue.

Alguns analistas disseram que o ataque pode ajudar Berlusconi, cuja popularidade foi afetada por acusações de corrupção e escândalos sexuais. Eles afirmam que o "fator solidariedade" deve impulsionar sua popularidade, e que o ataque pode fortalecer a posição do premiê na frágil coalizão de centro-direita.

"Acho que sua popularidade vai subir aos olhos da opinião pública e isto dificultará a tentativa de qualquer um de centro-direita de assumir seu lugar em breve", disse à Reuters o analista político Massimo Franco.

O rosto ensanguentado de Berlusconi foi estampado em jornais e TVs do mundo todo, mas na Itália as manchetes e comentários foram bem além dos ferimentos.

"Um tempo de ódio", foi a manchete do jornal La Nazione, de Florença. A palavra "ódio" foi usada por muitos analistas enquanto os italianos tentavam entender o que causou o ataque.

"Chegamos a isso. Um clima de ódio contra Berlusconi produziu efeitos devastadores", disse o jornal conservador romano Il Tempo na primeira página.

TENSÕES PERIGOSAS

Até comentaristas de esquerda, habitualmente críticos a Berlusconi e aos casos de corrupção dos quais ele é suspeito, admitiram que o ataque representa um símbolo das tensões políticas que se exacerbaram perigosamente.

L'Unitá, o diário do Partido Democrático, maior força da oposição, qualificou o ataque de "loucura". Mas Rosy Bindi, presidente do partido, afirmou que o próprio Berlusconi foi responsável pela tensão e "não deveria se fazer de vítima".

Fontes políticas disseram que o esquema de segurança de Berlusconi está sendo revisto, já que o agressor, Massimo Tartaglia, chegou perto o bastante do premiê para matá-lo caso tivesse uma arma de fogo.

O último assassinato de um político com grande repercussão na Itália foi o do ex-premiê Aldo Moro, em 1978, depois de ter sido sequestrado pela guerrilha de esquerda Brigadas Vermelhas.

Analistas disseram que o incidente com Berlusconi pode acirrar ainda mais a tensão política.

"O agressor era louco, mas todos nós sabemos quem são os moralmente responsáveis", disse Il Giornale, jornal de propriedade da família Berlusconi. O texto dizia que o ataque foi facilitado por um clima onde "Berlusconi foi chamado de ditador, fascista, tirano, um monarca absoluto que se deve derrubar a todo custo".

Silvio Berlusconi teve sua imunidade jurídica cassada em outubro e enfrenta vários processos por corrupção e fraude fiscal. Ele garante que está sendo vítima de uma perseguição política. O premiê é o homem mais rico da Itália.

Pesquisa publicada no sábado mostrou que a popularidade dele caiu 4 pontos percentuais e está um pouco acima dos 50 por cento.

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