Ana María Santa Díaz Santa Cruz de Tenerife (Espanha), 8 jul (EFE).- Enigmáticas esculturas da Ilha de Páscoa, os moais podem ter sido erguidos com o intuito de apontar para determinadas estrelas, que seriam mais importantes que o sol para a civilização Rapa-nui, segundo o astrônomo espanhol Juan Antonio Belmonte.

O pesquisador do Instituto de Astrofísica das Canárias fez, junto com o antropólogo da Universidade do Chile Edmundo Edwards, "uma reinterpretação arqueoastronômica" dos ahus - plataformas cerimoniais sobre as quais eram erguidos os moais -. Para isso, estudaram cerca de 30 desses lugares.

Ambos têm reinterpretado teorias anteriores, especialmente as do astrônomo americano William Liller, que considera que os ahus estavam orientados em direção ao ponto em que o Sol se põe e nasce nos equinócios e nos solstícios de inverno.

Belmonte explica, em entrevista à Agência Efe, que há mais de 100 ahus na ilha, por isso seria necessário fazer um estudo estatístico "detalhado" para verificar se eram orientados em função da astronomia e da topografia, algo similar ao que, para sua surpresa, encontrou no Egito.

"Os egiptólogos diziam que os templos apontavam para o Nilo e nós achamos que os egípcios escolhiam lugares com uma orientação astronômica sugestiva, que, ao mesmo tempo ,eram perpendiculares ao rio", declara.

Segundo ele, em Páscoa poderia ter ocorrido algo similar, mas é preciso "um estudo profundo".

Uma peculiaridade dos ahus é que a maioria deles foi colocada de modo que as estátuas dão as costas ao mar, o que inicialmente sugere que a orientação dominante é a topográfica.

Os moais "olhavam" para o povoado de seus descendentes, pois se acredita que sejam estátuas de grandes chefes mortos.

No entanto, os pesquisadores encontraram "conotações arqueoastronômicas interessantes" em estátuas situadas no interior da ilha. Dentre elas, uma está "claramente" orientada para as Plêiades e outras em direção à constelação de Órion.

A idéia de que os ahus e seus moais apontam para as estrelas parte das pesquisas feitas pelo antropólogo Edmundo Edwards, que reside em Páscoa e é casado com uma neta do último soberano aborígine da ilha.

Edwards tinha escutado as "idéias antigas e a tremenda importância" dada pelos anciãos de Páscoa às estrelas e, sobretudo, às Plêiades, que eles chamam matariki (pequenos olhinhos), e ao Cinturão de Órion, tautoru (os três belos) "mas não prestavam muita atenção no Sol".

Para os habitantes de Rapa-Nui, as Plêiades indicavam o princípio do ano no mês de Anakena, quando saíam ao amanhecer, e marcavam em sua última visão da tarde a estação de Hora-nui, a melhor do ano, quando começava a temporada de pesca e se realizavam rituais em homenagem aos antepassados em frente aos ahus com seus moais.

Órion também marcava o princípio do ano e o início das festas principais da ilha, em torno da primeira lua do verão.

No extremo oriental de Páscoa, na isolada península de Poike, existe, além disso, um lugar com uma pedra inscrita com gravuras conhecidas como "a pedra para observar as estrelas". Próximo ao local, existe uma representação de um mapa estelar.

Para Belmonte e Edwards, este mapa poderia ser uma representação bastante realista das Plêiades e a presença de anzóis em sua decoração sugere "uma conexão com a temporada de pesca", que vinha marcada pela aparição e pelo desaparecimento destas estrelas.

Belmonte explica que os habitantes de Páscoa utilizavam as estrelas como guia para a navegação e para o controle do tempo, através da observação de quando apareciam e sumiam em momentos específicos do ano.

A observação das estrelas é fundamental no Pacífico para se orientar entre as ilha.

Para os pesquisadores, o solitário moai de Ahu Uri A Urenga teria apontado para a saída das Plêiades pouco antes da saída do Sol no solstício de inverno, dando assim começo a um novo ano de Páscoa.

Além disso, os sete moais de Ahu A Kivi, as únicas estátuas da Ilha de Páscoa que olha para o mar, teriam contemplado as estrelas de Órion justamente quando estas se punham sobre o horizonte marinho, indicando também a chegada do novo ano com a aparição da lua nova do mês de Anakena.

Uma dificuldade para a pesquisa é o fato de que todos os moais foram derrubados nas guerras civis que houve na ilha no século XVIII, e só começaram a ser reinstalados a partir da década de 50 do século XX, embora a maioria deles ainda permaneçam danificados. EFE asd/bm/rr

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