Associação denuncia prisões em Israel durante ofensiva militar

A Associação pelos Direitos Civis em Israel afirma que a polícia reprimiu duramente a liberdade de expressão no país durante a recente ofensiva militar na Faixa de Gaza. Pelo menos 800 manifestantes, entre árabes e judeus, foram presos pelas autoridades israelenses durante a chamada operação Chumbo Fundido.

BBC Brasil |

Duas semanas depois de decretado o cessar-fogo, centenas desses manifestantes permanecem detidos no país, aguardando o fim dos procedimentos judiciais, disse a associação à BBC Brasil.

Entre eles está o estudante de Ciências Políticas Ran Tzoref, de 23 anos, preso durante uma manifestação na cidade de Beer Sheva, no sul de Israel, no dia 14 de janeiro.

Tzoref está em prisão domiciliar no kibutz (comunidade agrícola) Gazit, no norte do país, impedido de continuar seus estudos na Universidade de Beer Sheva.

"Fizemos uma manifestação pacífica em Beer Sheva, em que algumas dezenas de pessoas portavam cartazes, em silêncio, contra a ofensiva em Gaza", disse Tzoref à BBC Brasil.

"O meu cartaz estava escrito em árabe e dizia 'nesta guerra não há vitoriosos', de repente a polícia chegou e prendeu 6 dos manifestantes, alegando que a manifestação era ilegal", afirmou ele. "Israel afirma ser a única democracia do Oriente Médio, que democracia é esta se não temos mais nem a liberdade de realizar uma simples manifestação?", perguntou Tzoref.

A polícia israelense nega que tenha havido prisões arbitrárias.

"A policia não prende à toa, Israel não é um Estado policial mas sim um Estado democrático onde existe o direito de manifestação, contanto que não haja distúrbios à ordem pública e que as manifestações sejam coordenadas primeiro com as autoridades", disse à BBC Brasil o porta-voz da polícia Micky Rosenfeld.

Segundo ele, durante a guerra houve manifestações autorizadas pela polícia, tanto em favor como contra a ação militar. O porta-voz também afirmou que nas aldeias árabes de Israel houve vários casos de violência contra policiais, que resultaram na prisão de centenas de manifestantes.

Sobre o caso específico de Ran Tzoref a polícia afirmou que "não dá declarações sobre procedimentos judiciais em andamento".

Segundo os protocolos do julgamento, Tzoref representava perigo "pois era a segunda vez que participava de uma manifestação contra a operação em Gaza. A tinta do primeiro processo pela manifestação da qual participou no dia 29 de dezembro ainda não tinha secado e já em 14 de janeiro voltou a participar de uma manifestação ilegal".

A pedagoga Leah Shakdiel, de 57 anos, foi presa na mesma ocasião.

"Estava parada em uma esquina de Beer Sheva, segurando um cartaz com os dizeres 'tanto as crianças de Sderot como as crianças de Gaza têm direito de viver'", disse Shakdiel, professora de judaísmo.

A polícia ordenou que a professora permanecesse em prisão domiciliar por cinco dias e não entrasse em Beer Sheva por duas semanas, "para não voltar a cometer a infração".

Shakdiel contou que todos os cursos que ela dá são em Beer Sheva e os alunos tiveram que ir estudar em sua casa, em Yeruham, durante as duas semanas em que não pôde entrar na cidade.

"É inacreditável que, por ter usado o direito legítimo de me expressar contra a guerra, tenha sido presa e sujeita a esse tipo de restrições à minha liberdade", disse Shakdiel.

"Sou contra o Hamas, graças a Deus eles não têm a força para fazer o que gostariam, que é nos exterminar. Mas isso não significa que posso concordar que meu país cometa crimes de guerra e mate tantos civis", acrescentou.

"Não tenho simpatia nenhuma pelo Hamas mas devemos lembrar que na Faixa de Gaza vivem um milhão e meio de seres humanos, em péssimas condições, em uma área muito pequena e ninguém se importa com eles".

O advogado Dan Yakir, da Associação de Direitos Civis - que está representando Shakdiel e Tzoref - afirmou que pretende entrar com um recurso para que o procurador geral da Justiça, Meni Mazuz, cancele todos os processos contra os manifestantes.

"Esses processos são ilegais desde o início pois, segundo a lei em Israel, o que eles fizeram não representa infração alguma", afirmou Yakir.

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