Roma, 27 jan (EFE).- A Itália decidiu hoje chamar para consultas seu embaixador no Brasil, Michele Valensise, após o Governo brasileiro conceder status de refugiado político a Cesare Battisti, condenado pela Justiça italiana a prisão perpétua por quatro homicídios.

Esta decisão complica as relações diplomáticas entre os dois países que até então mantinham estreita colaboração em vários aspectos, sobretudo o econômico, vide a viagem oficial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Itália no mês passado.

Não são apenas as relações bilaterais que podem se deteriorar, pois o ministro do Interior italiano, Roberto Maroni, disse ontem à noite na televisão que o primeiro-ministro Silvio Berlusconi deve decidir agora que posição tomar sobre o Brasil em relação às próximas cúpulas do G8 que Itália organizará, algumas delas com participação brasileira.

O certo é que a chamada ao embaixador é a primeira medida feita efetiva do Governo italiano entre as muitas cogitadas nos últimos dias, se encarregando de comunicar a imprensa brasileira em uma tentativa de seguir pressionando Brasília.

Depois que o ministro da Justiça, Tarso Genro, decidiu há duas semanas conceder asilo político a Battisti, condenado na Itália por quatro assassinatos, o Supremo Tribunal Federal (STF) deve julgar a causa do ex-ativista de esquerda radical.

De fato, o último impulso que movimentou a Itália a chamar para consultas ao embaixador foi o pronunciamento a favor de Battisti por parte da Procuradoria-Geral da República, que recomendou ontem ao STF a concessão do asilo ao hoje escritor, que aguarda a decisão em uma penitenciária de Brasília, após ser preso em 2007 no Rio de Janeiro.

"O fato de decidir em apenas 48 horas depois sem ter avaliado com profundidade nosso pedido nos parece um pouco como não querer decidir e desejar apenas cobrir plena e simplesmente a decisão política do ministro da Justiça", disse hoje o ministro de Relações Exteriores da Itália, Franco Frattini, após conhecer a notícia.

Segundo o ministro italiano, o Brasil é um "grande país, amigo da Itália desde sempre" e por isso o Governo da Itália não se esperava este comportamento das autoridades brasileiras, daí, diz, a "gravidade" de sua reação.

"Achamos que Battisti é um terrorista, um terrorista comum que não merece em absoluto o reconhecimento do status de refugiado político", acrescentou.

Cumprida a primeira das ações que a Itália havia cogitado, agora o Executivo deve avaliar se interpõe ou não um recurso ao STF, possibilidade apoiada na sexta-feira pelo presidente da República italiana, Giorgio Napolitano, após receber uma carta de Lula.

Nessa carta, Lula respondeu uma outra, anterior, de Napolitano, que expressava sua "queixa" pela decisão de Tarso Genro e pedia a reconsideração da concessão do asilo a Battisti, sobre o qual Brasília se mantém firme até agora.

Em 1993 Battisti, membro na década de 1970 do grupo Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), braço das Brigadas Vermelhas, foi julgado à revelia na Itália e condenado à prisão perpétua como autor dos assassinatos de Antonio Santoro, Lino Sabbadin, Andrea Campagna e Pierluigi Torregiani.

Battisti, por quem o Governo brasileiro alega um "fundado temor de perseguição" caso seja devolvido ao seu país, sempre negou sua participação nos homicídios, nos 14 anos em que viveu refugiado na França, de 1990 a 2004, ano em que o Governo francês aprovou sua extradição à Itália.

Toda a política da Itália, onde nos últimos dias ocorreram manifestações minoritárias contra a decisão brasileira, aprovou a decisão de Frattini de chamar Valensise para consultas.

Há quem vá além: o subsecretário de Relações Exteriores italiano, Alfredo Mantica, pede que se considere a possibilidade de cancelar o amistoso entre as seleções de futebol de Brasil e Itália -maiores vencedoras de Copas do Mundo- marcado para 10 de fevereiro em Londres.

O Governo brasileiro, porém, opinou hoje que a decisão da Itália não vai prejudicar a relação bilateral.

"O Governo brasileiro reitera a confiança expressada pelo presidente (Luiz Inácio Lula da Silva) em sua carta dirigida ao presidente da Itália (Giorgio Napolitano) de que os laços históricos e culturais que unem ao Brasil à Itália seguirão inspirando nossos esforços para aprofundar nossas sólidas relações bilaterais", assinala um comunicado oficial.

O Ministério das Relações Exteriores especificou hoje que "se ajustam à legislação brasileira" todos os procedimentos sobre a concessão de refúgio a Battisti. EFE mcs/jp

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