Às vésperas de eleições, ditadura prolonga prisão de Suu Kyi em Mianmar

Miguel F. Rovira.

EFE |

Bangcoc, 20 dez (EFE).- O regime militar de Mianmar (antiga Birmânia) prolongou por mais 18 meses o longo cativeiro da líder opositora e Nobel da Paz Aung San Suu Kyi, para impedir que sua popularidade interfira nas eleições legislativas que planeja realizar em 2010.

"Posso saber por que nos temem tanto?", perguntou Suu Kyi ao oficial que comandava as centenas de soldados armados que bloqueavam o acesso dos milhares de manifestantes que marchavam pacificamente junto com ela por uma avenida de Yangun para exigir a democracia.

A lembrança do fato que aconteceu há mais de 13 anos, durante um dos curtos períodos de liberdade que viveu nas últimas duas décadas, reflete o motivo pelo qual a junta militar mantém sob prisão domiciliar a líder opositora, ainda muito popular apesar das persistentes tentativas dos generais de manchar sua imagem.

O temor dos generais birmaneses a Suu Kyi remonta a 1991, quando por menosprezar a popularidade da ativista e a da sua Liga Nacional pela Democracia (LND), foram derrotados em eleições legislativas, cujos resultados nunca reconheceram.

Cada vez que Suu Kyi foi liberada após passar anos confinada, a última vez em 2002, o povo se amontoou frente à sua casa de estilo colonial para escutar suas mensagens, revolucionando as cidades pelas quais passou durante as poucas excursões efetuadas por Mianmar.

Em junho, a junta militar demonstrou de novo o quanto teme a líder do movimento democrata birmanês, a quem acusou de quebrar a prisão domiciliar que cumpria há seis anos, justo quando faltavam poucos dias para que expirasse.

Após várias visitas realizadas a portas fechadas na prisão de segurança máxima de Insein, Suu Kyi foi condenada a três anos de trabalhos forçados pelo tribunal especial, embora o chefe da junta militar, geral Than Shwe, tenha alterado a pena imposta pelo tribunal pela de 18 meses de prisão domiciliar.

"O Governo faz tudo o que pode para que a população esqueça Aung San Suu Kyi, mas o efeito de suas ações está sendo o inverso do que pretendem", disse Nya Win, porta-voz da LND, partido que, por conta das deserções e da morte de muitos de seus mais importantes dirigentes, depende inteiramente da popularidade de sua líder.

O julgamento de Suu Kyi, tachado de "farsa" pelos líderes da comunidade internacional, fez com que o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, viajasse a Mianmar com o propósito de conseguir sua libertação.

Ban abandonou Mianmar decepcionado, depois que o general Than Shwe rejeitou em duas ocasiões, em menos de 24 horas, seus pedidos para se reunir com Suu Kyi em Insein, onde estão presos a maior parte de 2.100 presos políticos.

A pena imposta a Suu Kyi, de 64 anos, a impede de participar das eleições legislativas para as quais se preparam vários partidos políticos de nova criação.

Visando às eleições, que acontecem em 2010, o regime incentivou as organizações e coletivos, assim como os grupos armados das maiores etnias do país, a se transformarem em partidos políticos.

De acordo com a Constituição aprovada em maio do ano passado por um plebiscito, a ditadura militar reserva para ela um quarto das cadeiras da Câmara.

Até o momento, o Governo não divulgou o calendário do processo eleitoral, que segundo denuncia a dissidência, supõe que os militares retenham o poder que arrebataram em 1962, mediante um golpe de estado.

"Os militares birmaneses estão hoje muito perto de conseguir seu objetivo, que é justificar as décadas de ferrenha ditadura e serem reconhecidos como salvadores do país", comentou George Steimberg, especialista da Fundação Ásia e autor de vários livros sobre Mianmar. EFE mfr/fm

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