As Farc acusam dois chefes rebeldes de traição

A operação de resgate de Ingrid Betancourt e outros 14 reféns foi possível por causa da traição de dois chefes rebeldes que os custodiavam, afirmou nesta sexta-feira a guerrilha colombiana das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) em comunicado divulgado na internet.

AFP |

"A fuga dos 15 prisioneiros de guerra, em 2 de julho passado, foi conseqüência direta da desprezível conduta de Gerardo Aguilar, o Cesar, e de Alexander Farfán, o Enrique, que traíram seu compromisso revolucionário e a confiança que foi depositada neles", assinalou o texto.

O documento assinado pelo secretariado (cúpula das Farc) e divulgado na página da Agência Bolivariana de Imprensa, é datado de 5 de julho.

Nele, as Farc asseguram que mantêm vigente sua "política para concretizar acordos humanitários de intercâmbio e, além disso, protejam a população civil dos efeitos do conflito".

Ingrid Betancourt, política franco-colombiana, foi resgatada depois de seis anos e quatro meses de seqüestro, com mais três americanos e 11 militares colombianos, numa operação realizada por um comando da inteligência do Exército.

O comunicado rebelde diz que a operação de resgate dos reféns foi "um episódio inerente a qualquer confrontação política e militante, com vitórias e reveses", acrescentando que as Farc não desistirão de seu objetivo de deter seus membros.

Além disso, advertiram que se o governo persistir no resgate como única via terá de assumir todas as conseqüências de sua temerária e aventureira decisão, enfatizaram as Farc.

Os dois guerrilheiros, descritos por seus antigos reféns como "carcereiros", estão detidos sob forte medidas de segurança na sede central da Promotoria em Bogotá.

O governo dos Estados Unidos havia solicitado formalmente no dia 9 de julho à Colômbia a extradição dos dois que, além das acusações de seqüestro de três americanos, são acusados por narcotráfico.

Em meio à polêmica sobre se receberam ou não pagamento pela libertação dos reféns, os advogados de Aguilar e Farfán haviam dito que eles nada receberame que foram enganados.

Há uma semana, a Radio Suisse Romande (RSR) assegurou - citando "fonte ligada aos acontecimentos"- que os dois guerrilheiros haviam recebido 20 milhões de dólares para libertar os 15 reféns.

Os governos da Colômbia, dos Estados Unidos e da França negaram o pagamento.

Semanas antes da operação, o presidente colombiano, Alvaro Uribe, anunciou publicamente que seu governo havia destinado um fundo de 100 milhões de dólares para os guerrilheiros que vigiavam os reféns, se desertassem e entregassem os cativos.

Uribe também disse que seu governo se comprometia a respeitar a liberdade dos guerrilheiros que decidissem aceitar sua oferta, além de negociar para eles uma acolhida num país estrangeiro.

Segundo fontes militares, Aguilar havia assumido os contactos das Farc com organizações que traficam droga através do Brasil e da Venezuela, depois da morte em setembro de Tomás Medina, o "Negro Acacio", que durante anos administrou as ligações com a organização que dirigia o narcotraficante brasileiro detido Fernandinho Beira Mar.

Aguilar, ou "César", de 49 anos, também havia assumido há mais de dez anos o comando da primeira frente das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) que opera nas selvas de Guaviare, sudeste de Colômbia.

Era considerado um dos homens mais próximos do chefe militar das Farc, Jorge Briceño ("Mono Jojoy"), e segundo o Exército estava à frente das operações para trocar cocaína por armas.

Aguilar nasceu na aldeia de Yumbo, departamento de Valle del Cauca (sudoeste), de onde partiu no final da década de 70 para as zonas de colonização camponesa, atraído como outros pelo dinheiro que começou a chegar a essas regiões com o cultivo da folha de coca.

Com Briceño participou do planejamento e da execução de vários ataques no sudeste da Colômbia, entre eles a tomada da base antinarcóticos de Miraflores em 1998, onde foram seqüestrados 56 policiais e militares.

Sua companheira, a guerrilheira Luz Dary Conde, está na prisão desde fevereiro depois de detida perto da fronteira com a Venezuela.

Aguilar foi, segundo antigos reféns, quem ordenou tirar de Clara Rojas -libertada em janeiro- o filho nascido em cativeiro, Emmanuel, para entregá-lo a uma família de camponeses.

Farfán era diretamente responsável pela segurança dos acampamentos onde estavam os cativos e foi descrito por Ingrid Betancourt como um homem "malvado, sanguinário e quase sádico".

O governo colombiano extraditou pelo menos outros quatro dirigentes das Farc, entre eles Ricardo Palmera, ou "Simón Trinidad", condenado em janeiro a 60 anos de prisão pelo seqüestro dos três americanos Marc Gonsalves, Thomas Howes e Keith Stansell, libertados quarta-feira passada.

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