As árvores morrem sentadas?

Tem verde que não acaba mais em Londres. Contrabalançando as tonalidades plúmbeas da poluição urbana.

BBC Brasil |

Verdes que eles querem verdes. Parques e jardins. Estes últimos, muitos particulares, ou seja, para uso apenas dos habitantes que moram em torno.

Gente com chave de jardim, muito pimpona, indo se sentar no banco e ler um romance de Geoffrey Winterbottom, autor, por sinal, inexistente, mas de grande repercussão nos meios esotéricos (leia-se aloprados) londrinos.

Eu sou o feliz possuidor de uma dessas chaves de jardim. Aliás, duas chaves para dois jardins, já que meu flat dá de frente para um e de costas para outro.

Gosto dos dois. Já freqüentei mais. Hoje, só para ler o esplêndido Winterbottom e evitar ao máximo olhar para as crianças brincando antes que um bom vizinho me olhe feio (não me dou com uma única dessas criaturas, mesmo após 30 anos de residência nesta aprazível, aqui e ali, cidade).

O jardim da frente, por nome Bolton, tem uma árvore enorme bem no meio e não tenho a menor idéia da raça a que pertence. Pelo jeitão, e de orelhada, eu diria tratar-se de um plátano. Não sei o que é um plátano. Apenas que soa bem no ouvido e descansa a alma. Um plátano é mais digno e reconfortante que um pé de jaca. Pago uma boa nota por esse plátano, já que jardim, com grama, árvore e criançada vem incluído no preço cada vez mais alto do imposto predial.

Deixo minha árvore e vou às dos outros, às dos londrinos, essa gente cada vez mais estranha, mais multiculturalizada.

O preço de uma árvore
Há logo ali em Berkeley Square, no elegante bairro de Mayfair, aquela mesma praça onde na canção um rouxinol cantou, uma árvore avaliada em US$ 1,5 milhão.

Só pode ser um plátano. Um tremendo plátano. Tem 1 metro e 80 centímetros de diâmetro. Olhando bem para o plátano, eu não daria mais que US$ 50, e mesmo assim com direito de nele colocar balanço.

Mas isso é problema meu. Fico sabendo que há uma cambada de árvores em Londres avaliadas em mais de US$ 1 milhão. Todas elas nos bairros mais chiques, feito Kensington & Chelsea (esse é o meu) e Westminster. Passo por elas agora com novo respeito.

Uma coisa é garantida: não há condição de derrubarem todas essas frondosas (em certos dias do ano) platanáceas, se platanáceas forem, para plantarem uma bobagem qualquer que, na mente dos menos esclarecidos, poderia - poderia! - vir a servir de combustível.

"Cavat canem circenses"
Mexendo aqui e ali, fiquei sabendo que, se juntarem todas as árvores de Londres, a coisa poderia chegar a perto de US$ 13 bilhões. Madeireiros, virem essa cobiça pra lá.

A entidade que cuida dessas coisas tem por nome Capital Asset Value for Amenity Trees (Cavat), que me recuso a traduzir por uma questão de respeito a nossas irmãs irracionais, as árvores, e nossos irmãos medianamente racionais, os britânicos.

A Cavat encarregou-se da espinhosa tarefa de avaliar as cerca de 600 mil árvores desta capital de acordo com tamanho, saúde, aspecto geral, significado histórico e quantas pessoas moram perto das bichinhas, podendo assim usufruir de suas arbóreas dádivas.

A Cavat andou assustada, e com razão, com o fato de que, nos últimos cinco anos, vários conselhos regionais da capital terem derrubado, num verdadeiro massacre, parece que por pura deformação psicológica aliada à sacanagem, quase que 40 mil árvores, muitas das quais centenárias. Tomou então a iniciativa de botar no seguro essa arvorada toda. Daí então a alta cifra, nada arbitrária, atingida pelo plátano de Berkeley Square.

A Cavat não pretende estender suas atividades à Amazônia. Seria interferência indevida em país soberano. Casus belli garantido.

Em tempo: cavat canem circenses não quer dizer absolutamente nada, que é como ser nesses casos.

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG