Clima de comoção continua nas últimas horas do velório do ex-presidente, morto na quarta-feira após parada cardiorrespiratória

Centenas de argentinos passaram a madrugada desta sexta-feira em claro para acompanhar o velório do ex-presidente Néstor Kirchner, que morreu na quarta-feira após sofrer uma parada cardiorrespiratória. Às 6h30 desta sexta-feira (7h30 no horario de Brasília), a população ainda esperava para entrar na Casa Rosada, sede do governo em Buenos Aires, e se despedir de Kirchner.

O velório, que começou na manhã de quinta-feira e estava previsto para terminar às 10h desta sexta-feira (11h de Brasília), ainda continua por causa do número de pessoas que foram prestar homenagem e da chuva.

Em Buenos Aires, continua o clima de desolação que tomou conta da cidade desde que a notícia da morte de Kirchner foi divulgada. Na sala onde o corpo do expresidente é velado, a grande maioria dos visitantes se emociona e vai às lágrimas.

Na manhã desta sexta-feira, a irmã do ex – presidente e ministra do Desenvolvimento Social Alicia Kirchner continuava ao lado do corpo do irmão e por vezes se aproximava à grade de contenção dos visitantes para receber abraços, flores, cartas, bandeiras e até mesmo um urso de pelúcia com o símbolo do Racing Club, time de futebol do qual Kirchner era torcedor.

Do outro lado da grade, os visitantes não continham a emoção e diziam frases como “força Cristina”, “obrigada, Néstor” e “este projeto está só começando”. Após cada frase, uma salva de palmas. O interior da Casa Rosada está repleto de coroas de flores, espalhadas por todo o trajeto feito pelos visitantes até a sala do velório. As coroas foram enviadas por líderes mundiais, artistas locais e sindicatos.

Noite em claro

A especialista em marketing Josefina Franchino, 31 anos, chegou da viagem de lua-de-mel ao Taiti às 0h30 (1h30 de Brasília), deixou as malas em casa e, ao lado do marido, foi à Casa Rosada logo em seguida. Foram cinco horas de espera até que o casal pudesse se aproximar do caixão.

“Não sou uma kirchnerista inveterada”, explicou Josefina. “Mas no único momento da lua-de-mel em que ligamos a televisão, vimos a notícia na CNN e não pudemos deixar de vir. Concordando ou não com suas ideias, Kirchner foi um grande presidente e uma grande pessoa. Nós, como cidadãos, tínhamos a obrigação de participar deste momento histórico”.

Depois de prestar a última homenagem a Kirchner, o casal voltou para casa para descansar, privilégio que o profesor de geografía Fabián Volpe, 42 anos, não teria. Ele chegou à fila na noite de quinta-feira e só deixou o velório às 6h15 (7h15 de Brasília). De lá, partiria para uma longa jornada de trabalho e mais uma viagem de duas horas até chegar à sua casa em La Matanza, na grande Buenos Aires.

Para ele, a maratona valeu a pena. “É como se fosse o velório de um companheiro, de alguém muito próximo”, explicou. “Fiz questão de vir porque agora, pela primeira vez, sinto que vivemos uma política mais limpa e transparente”.

Vendas

Vendedores ambulantes também passaram a noite em claro na tentativa de aumentar as vendas. O padeiro Martín Cherino, 28 anos, chegou à Praça de Maio, em frente à Casa Rosada, na noite de quinta-feira para vender “facturas”, pães doces típicos da Argentina.

Morador de Longchamps, na periferia de Buenos Aires, ele fez uma viagem de três horas e pegou dois trens, um metrô e um ônibus. “Estou contente porque já vendi dúzias de facturas e pretendo acabar com o estoque até o fim do velório”, contou. Fã de Kirchner, o padeiro considerou a morte “uma lástima” e afirmou que é hora de ajudar a presidente Cristina Kirchner. “Esta política está cheia de cobras”, opinou.

Em frente à Casa Rosada, ambulantes também vendiam chipá (bolinho de queijo paraguaio parecido com o pão de queijo brasileiro), café, refrigerante, hambúrguer e cachorro-quente. O pôster e o bottom estampados com o rosto de Nestor Kirchner saíam por cinco pesos cada.

O chão da Praça de Maio está cheio de flores, panfletos impressos de um dia para o outro para prestar homenagem a Kirchner e lixo. O clima de “ressaca” mostra, mais uma vez, a grande consternação e comoção causadas pela morte do expresidente.

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