Argentinos ficam apreensivos com o futuro após morte de Kirchner

Na fronteira com o Brasil, perda é recebida com dor e preocupação em relação ao governo de Cristina Kirchner

Tatiana Klix, enviada a Porto Iguaçu, Argentina |

Em pleno feriado por conta do censo populacional na Argentina, os moradores da pequena Porto Iguaçu, cidade de cerca de 30 mil habitantes na fronteira com Foz do Iguaçu, no Paraná, se encheram de apreensão e dor pela notícia da morte do ex-presidente Nestor Kirchner. Embora a proximidade com o Brasil e o Paraguai crie na região um certo distanciamento dos problemas econômicos do país, os moradores sentem a perda e se preocupam com o futuro político argentino.

“Aqui a gente não sente muito quando falta trabalho na Argentina, porque sempre podemos ir para o Brasil ou o Paraguai. A vida é diferente. Mas sei que é uma perda para o país, que está em luto”, diz a dona de casa Rosa Soria, de 56 anos.

Muito menos racional foi a reação do médico Maidona Francisco Braulio, de 50 anos, que ouviu a notícia enquanto dirigia e caiu imediatamente em prantos. “A dor não é pelo homem, mas pela história política argentina. No governo de Nestor, que agora continua com Cristina (Kirchner), tivemos sete anos de estabilidade, feitos concretos para os pobres, regras claras para o cidadão”, justifica.

A mesma preocupação atinge os jovens Gabriel Rodrigues e Sebastian Calgaro, ambos de 25 anos, que acreditam que a mulher de Kirchner - a atual presidente - não terá força política para se manter no poder e se preparam para um novo período de incertezas políticas e econômicas na Argentina. “Eles governavam juntos, são uma coisa só”, diz o chef de cozinha Calgaro. “Nestor conseguiu dividir a oposição e apostava nisso para reeleger Cristina. Sozinha, vai ser difícil”, prevê o guia turístico Rodrigues.

Ainda mais pessimista sobre as condições de Cristina Kirchner continuar fazendo um bom governo, Maria Inácia Oliveira, de 75 anos, diz que a presidente é apenas uma figura ilustrativa que representava as vontades de Nestor. Para explicar a relação do casal no poder, a aposentada busca a memória do que foi o político mais importante e adorado do país, Juan Domingo Perón. Evita (Peron, primeira-dama) era a força de Perón. Agora é o contrário: Cristina é só um fantoche de Nestor”, diz. “Sem ele, não sei o que vai acontecer. Não sou do partido dos Kirchner, mas tenho que reconhecer que fizeram um bom governo. Tenho aposentadoria graças a ele, afirma em tom de despedida, como se o governo tivesse morrido junto com o ex-presidente.

Dor de argentinos no Brasil

Do lado brasileiro da fronteira, na Universidade de Integração Latino Americana (Unila), a morte de Kirchner também foi recebida com comoção. Entre os alunos argentinos, residentes no Brasil há apenas três meses, os lamentos pela perda dominaram as conversas durante todo o dia. “Estamos muito tristes. Falei com a minha família e todos estão arrasados”, contou Paula Guerra, de 18 anos. A estudante Maria Lilia Macedo, de 20 anos, ficou inconsolável e com vontade de viajar até a Argentina para acompanhar o luto. “Ele acabou com a fome do meu país”, repetiu várias vezes aos colegas brasileiros, paraguaios e uruguaios que estudam na mesma universidade. A dor foi acompanhada pelo professor, também argentino, Eduardo Jorge Vior, que se juntou aos conterrâneos para lembrar do líder.

    Leia tudo sobre: Kirchnerargentinabrasilporto iguaçu

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG