Argentina tenta resgatar credibilidade perdida

Governo quer renegociar calote de 2001 para atrair investimentos, mas isso não será suficiente para país voltar ao cenário mundial

Gisele Teixeira, especial para o iG de Buenos Aires |

© AP
Argentinos protestam contra plano fiscal
e de corte de gastos do governo em 2000
Há mais de cem anos, quase um milhão de pessoas, num dos maiores fluxos migratórios da história, deixaram uma Itália em frangalhos rumo ao sul das Américas para ajudar a formar uma das nações mais prósperas do mundo até a primeira metade do século 20. Atualmente, na avaliação do governo, a Argentina volta a depender da decisão de milhares de italianos para voltar a ter prestígio internacional e atrair investimentos do exterior.

A Associação Italiana de Proteção aos Investidores em Títulos Argentinos, que representa 180 mil investidores, é a maior credora externa da Argentina, com quase US$ 5 bilhões a receber. Em 2001, em meio à sua pior crise econômica, o governo argentino anunciou o maior calote da história do capitalismo ao decretar a moratória da dívida externa de US$ 95 bilhões.

A nova tentativa para tentar limpar o nome do país foi dado neste mês. Na semana passada, o ministro argentino da Economia, Amado Boudou, propôs a reabertura da troca de dívida aos credores que não aderiram à reestruturação da dívida pública em 2005, esperando “acabar com a vergonha de 2001”.

A Argentina de Cristina Kirchner, que sucedeu ao marido, Néstor Kirchner, em 2007, tenta deixar para trás o passado de pária no mercado financeiro internacional. Os credores detêm ainda US$ 20 bilhões em bônus da “vergonha de 2001”, além de exigir juros avaliados em US$ 9 bilhões. A proposta do governo é pagar um terço do valor da dívida vinculado a um reajuste caso a economia cresça mais.

Além desse passivo, a Argentina precisa renegociar sua dívida com o Clube de Paris, que reúne os países mais ricos, avaliada em US$ 6,5 bilhões.

A decisão de reestruturação da dívida caberá aos credores e é considerada pelo governo como um passo adiante. Mas analistas avaliam que a decisão em si não parece ser suficiente para que a Argentina volte a ter um papel de destaque no cenário mundial.

Economia argentina

Confira o desempenho do desemprego (%) e do PIB (%) da Argentina nos últimos 25 anos (1985 a 2009). Instruções: passe o mouse sobre o gráfico para ver os números de cada ano.

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Fontes: FMI e INDEC | *ATENÇÃO: o PIB de 2009 é uma projeção do FMI

Tropeços históricos

Ao longo do século 20, a Argentina sofreu recorrentes crises econômicas, graves problemas fiscais e acumulou déficits em conta corrente. Além disso, enfrentou inflação alta, dívida externa e fuga de investidores estrangeiros. Um quadro fiel à enorme instabilidade política, causada por seis golpes de Estado intercalados com ciclos de populismo político.

Os argentinos vivem atualmente uma de suas fases de euforia pós-crise mundial, apesar de as políticas econômicas não atacarem problemas estruturais.

Segundo os números oficiais, o país cresceu 5,4% no primeiro trimestre de 2010, acima da estimativa de 3% a 4% esperada pelos analistas. A safra agrícola deve chegar a 54,5 milhões de toneladas graças ao boom da soja, de acordo com a Bolsa de Cereais de Buenos Aires, e o governo parece ter superado o problema de déficit fiscal. “É o maior período nos 200 anos de história com superávit fiscal”, disse ao iG o economista Eric Ritondale, da consultoria Econviews.

Mas, apesar desse avanço, a Argentina ainda não conseguiu superar a imagem de instabilidade que tem no exterior, afirma o economista. “O problema é que não há números oficiais confiáveis que explicitem o bom desempenho”, disse, referindo-se às denúncias de maquiagem das estatísticas oficiais.

Segundo o economista, a boa fase do país vem sendo confirmada pela explosão de consumo, principalmente de bens duráveis como carros e TVs, que devem bater recorde de vendas neste ano.

No entanto, outros analistas advertem que essa fase de prosperidade pode ser passageira. “É preciso controlar a inflação, tendo em vista que ela castiga os pobres e dificulta os investimentos”, disse o economista Dante Sica, da consultoria Abeceb.

Inflação argentina

Confira o índice da inflação (%) nos últimos 25 anos (1985 a 2009). Instruções: passe o mouse sobre o gráfico para ver os número de cada ano.

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Fontes: FMI | *ATENÇÃO: o número de 2009 é uma projeção do FMI


A alta nos preços está longe do cenário de hiperinflação pós-democratização nos anos de 1980, mas corrói parte dos salários dos argentinos e ajuda o governo a fechar as contas - a estimativa é de inflação de 20% para 2010, quatro vezes mais que o Brasil.

Segundo Sica, a Argentina precisa recuperar sua capacidade energética, com investimentos na produção de petróleo e gás. O Estado argentino perdeu boa parte de sua capacidade de gerenciamento, com a privatização das indústrias durante o governo de Carlos Menem (1989-1999), que resultou na grande crise da desvalorização cambial e no calote de 2001.

A dinastia Kirchner tenta recompor a capacidade de investimento do Estado, mas suas iniciativas são consideradas desastrosas. No fim de 2008, os fundos privados de aposentadoria foram nacionalizados, possibilitando ao governo controlar empresas privadas por meio de indicação de seus conselheiros.

Mais recentemente, o governo abriu uma séria crise que levou à deposição de Martin Redrado da presidência do Banco Central - que, na teoria, é independente - depois que ele rejeitou fazer o pagamento de US$ 6 bilhões aos credores, pondo mais dúvidas sobre a credibilidade da Argentina no mundo todo.

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