Argentina: seqüestro de testemunha é atribuído a agentes residuais da ditadura

O seqüestro do ativista argentino dos direitos humanos Juan Puthod, que reapareceu com vida na quarta-feira, foi organizado por agentes residuais da ditadura (1976-1983) contrários a uma homenagem às vítimas do terrorismo estatal do regime militar, afirmou nesta quinta-feira um líder humanitário.

AFP |

"Eles o seqüestraram por causa do monumento que será inaugurado no dia 16 de maio em homenagem a Osvaldo Cambiasso e Eduardo Pereyra Rossi, dois militantes peronistas que foram fuzilados", disse à imprensa Martín Labrau, vice-presidente da Casa da Memória em Zárate, 90 Km ao norte da capital argentina.

Puthod, de 50 anos, pai de quatro filhos, testemunha nos julgamentos por repressão ilegal e sobrevivente dos centros de extermínio da ditadura, foi encontrado machucado e em estado de choque, após permanecer seqüestrado por 27 horas, informou nesta uma fonte governamental.

Cambiasso e Pereyra Rossi foram seqüestrados por um comando policial em 1983 - meses antes da restauração da democracia -, torturados e executados de forma clandestina, em um caso pelo qual é acusado judicialmente o ex-subcomissário policial Luis Patti.

Patti havia sido eleito deputado em 2005 por um partido de direita da província de Buenos Aires (centro-leste), mas foi impedido de assumir. Ele permanece detido em uma prisão acusado por crimes e torturas.

"Cobriram minha cabeça, me pegaram e quiseram me matar. Estou tranqüilo, estou vivo. Revivi o que passei há 32 anos. Veio tudo de novo na minha memória", declarou o sobrevivente antes de formalizar seu depoimento.

O dirigente foi seqüestrado por agentes da ditadura quando tinha 17 anos e passou seis anos preso, primeiro em centros de detenção clandestinos e depois em uma penitenciária, quando deixou de ser considerado desaparecido.

Durante seu calvário, Puthod foi brutalmente torturado e perdeu a visão de um dos olhos, entre outras graves seqüelas físicas que ficaram de sua passagem pelos porões da ditadura.

Puthod é presidente da Casa da Memória. Ele foi hospitalizado em estado de choque, em um caso que causou grande preocupação no governo, segundo afirmou na quarta-feira a presidente Cristina Kirchner.

Cristina manteve a política de direitos humanos de seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), que favorece o julgamento de quase mil militares e agentes da ditadura, após a suspensão das leis de anistia e indultos.

Mas a política de revisão histórica dos crimes de lesa-humanidade recebeu um duro golpe em 2006 com o desaparecimento de outra testemunha e sobrevivente dos centros de extermínio, o pedreiro Julio López, que ainda permanece na condição de primeiro desaparecido político em 25 anos de democracia.

Puthod também coordena um programa de rádio dedicado a lembrar as vítimas da repressão ilegal, pedindo o julgamento e a punição dos responsáveis pelas torturas e assassinatos.

López, que tinha 77 anos ao desaparecer, há um ano e meio, foi testemunha chave para a condenação à prisão perpétua do ex-chefe de polícia Miguel Etchecolatz, um dos mais sanguinários diretores dos centros de extermínio.

Puthod, assim como López, testemunhou contra ex-militares e policiais da ditadura, durante a qual cerca de 30.000 pessoas desapareceram e outras dezenas de milhares foram exiladas, segundo organismos humanitários.

No caso de López, a Justiça suspeita que seu desaparecimento esteja ligado a uma tentativa de agentes residuais da ditadura de amedrontar as testemunhas dos julgamentos contra ex-militares e ex-policiais.

dm/ap/fp

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