Argentina, país de leitores e grandes escritores

Produção literária de país vizinho no século 20 supera em qualidade a do Brasil

Augusto Gomes, iG São Paulo |

“Buenos Aires, sozinha, tem mais livrarias que o Brasil inteiro.” A afirmação é falsa (segundo dados de 2008 da Associação Nacional de Livrarias, o Brasil tem pouco menos de 2,8 mil estabelecimentos do gênero; Buenos Aires tem entre 350 e 400), mas o fato de ser repetida pelos brasileiros diz muito sobre o que pensamos sobre nossos hábitos de leitura quando comparados aos dos argentinos. E, exageros à parte, a lenda tem um fundo de verdade: o argentino realmente lê mais que o brasileiro.

Pesquisa da NOP World Reports Worldwide, feita em 2005 em 30 países, colocou o Brasil no 27º lugar entre os que mais leem no mundo, com média de 5,2 horas de leitura por semana. A Argentina ficou nove posições à frente, em 18º lugar. Outra pesquisa, realizada em 2000 pela Associação Internacional de Leitura Conselho Brasil Sul, revela que o brasileiro lê em média um livro por ano. Os argentinos, quatro.

Se há mais leitores, é de esperar que haja mais livros publicados. De novo, os números: em 2006, foram 85 milhões de exemplares publicados e 18 mil novos títulos, segundo dados da Secretaria de Comunicação da Presidência da Argentina. No Brasil, foram 320 milhões de exemplares e 46 mil títulos (dados da Câmara Brasileira do Livro em 2006). Antes que se comemore a vitória, vale lembrar: nossa população é quase cinco vezes maior que a argentina.

Mais leitores, mais livros - a relação é óbvia. Mais livros, melhores livros - será uma conclusão óbvia também? É um tipo de relação que não pode ser comprovada estatisticamente. Mas é impossível não pensar nela ao comparar a qualidade das literaturas argentina e brasileira nos últimos cem anos: nossos vizinhos são superiores.

© AP
Jorge Luis Borges, um dos maiores escritores argentinos, em foto de 1981

No século 20, não houve no Brasil um escritor do porte de Jorge Luis Borges ou Julio Cortázar, dois argentinos que estão entre os maiores gênios da literatura do século. Difícil encontrar também quem se compare a Adolfo Bioy Casares, Juan José Saer, Roberto Arlt, Ernesto Sábato ou Antonio Di Benedetto. Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto - a lista dificilmente passa daí.

Quanto ao século 21, ainda é cedo para fazer uma comparação. Mas se alguém encontrar muita coisa escrita no Brasil melhor que "O Passado" (2003), de Alan Pauls, ou "Jardins de Kensington" (2003), de Rodrigo Fresán, parabéns.

Veja abaixo uma lista de dez livros fundamentais para conhecer a literatura argentina do século 20:

" Don Segundo Sombra" (1926) - Ricardo Güiraldes

Clássico da literatura gaúcha (na Argentina, o termo é usado para definir os moradores da região dos Pampas), virou filme em 1969.

"Os Sete Loucos" (1929) - Roberto Arlt

O estilo coloquial, violento e surreal de Arlt chocou o meio literário argentino nos anos 20 e influenciou Borges. Esse é seu melhor trabalho.

"A Invenção de Morel" (1940) - Adolfo Bioy Casares

Criminoso foge para uma ilha deserta e lá se depara com acontecimentos inexplicáveis. Um clássico da literatura fantástica.

"O Aleph" (1949) - Jorge Luis Borges

Coletânea de contos publicada por Borges no final dos anos 40. Inclui alguns de seus melhores relatos, como "O Imortal".

"Zama" (1956) - Antonio di Benedetto

Pouco conhecido no Brasil, Benedetto é um dos grandes escritores da Argentina. Nesse romance, conta a história de um funcionário da coroa espanhola esquecido na colônia.

"As Armas Secretas" (1959) - Julio Cortázar

Cortázar é famoso pelo romance "O Jogo da Amarelinha", mas o seu melhor são os contos. Caso de "O Perseguidor", presente nesse volume.

"Sobre Heróis e Tumbas" (1961) - Ernesto Sábato

Sábato é o mais pessimista dos grandes escritores argentinos. Esse é, ao lado de "O Túnel" (1948), seu principal livro.

"O Beijo da Mulher Aranha" (1976) - Manuel Puig

Transformada em filme por Hector Babenco nos anos 80, acompanha a convivência de dois companheiros de cela, um deles homossexual.

"O Enteado" (1982) - Juan José Saer

Um dos melhores exemplares de escrita da Saer. Conta as memórias de um sobrevivente de uma expedição espanhola pela América do Sul no século 16.

"Santa Evita" (1995) - Tomás Eloy Martínez

Traduzido em mais de 30 idiomas, o livro acompanha as peripécias do corpo da primeira-dama Eva Perón (1919-1952) após sua morte.

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