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Argentina debate como relançar governo pós-crise

Enquanto a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, suspira aliviada após a pior crise de seu governo, analistas no país discutem as opções da mandatária para relançar seu governo - desperdiçado em grande parte em disputas com o setor rural. Sete meses após o início do governo - dos quais quatro meses foram envoltos em disputas -, o debate está em programas de TVs, em jornais e no dia-a-dia de observadores.

BBC Brasil |

"Cristina tem vários desafios pela frente, mas certamente o mais difícil será afastar o marido (seu antecessor na Presidência, Néstor Kirchner) da sua gestão", disse o cientista político Rosendo Fraga, do Centro de Estudos Nova Maioria, em uma entrevista ao canal C5N.

O ex-presidente foi o principal cabo eleitoral da polêmica resolução 125, que aumentava impostos para o setor rural e que acabou tendo de ser revogada por Cristina Kirchner após um empate no Congresso e o voto de minerva de seu próprio vice, Julio Cobos, também presidente do Senado.

"Nesse período, Kirchner teve muito mais protagonismo que sua esposa, Cristina. Foi exagerada a postura do tudo ou nada e isso aprofundou as diferenças (no país)", disse o analista da consultoria OPSM Enrique Zuleta Puceiro.

Uma pesquisa de opinião da consultoria publicada na segunda-feira pelo jornal Página/12 revelou que 41,5% dos argentinos aprovaram a decisão do Senado, diante de 30,2% que reprovaram o resultado da votação.

Na opinião de Puceiro, o governo estava ganhando a disputa com o setor rural, mas passou a perdê-la ao falar em "golpe" - referência à maneira como o ex-presidente se referia aos líderes ruralistas.

Apoio
Passada a crise, e ainda que seu fim tenha representado um duro revés para a presidente, mesmo representantes da oposição expressaram "apoio" ao governo de Cristina, desde que ela mantenha seu marido afastado do poder.

"Ela tem uma oportunidade e tanta a partir de agora. Temos que apoiá-la. Ainda faltam três anos e meio de governo. E Kirchner, que era um problema, se esfumaçou depois da derrota da semana passada", disse a ex-deputada Elisa Carrió, da opositora Coalizão Cívica.

O governador da província de São Luís, Alberto Rodríguez Saá, peronista da oposição, foi na mesma linha: "É hora de apoiá-la", afirmou Saá. Os dois falaram ao mesmo canal C5N.

Na mesma linha, o escritor Marcos Aguinis, autor do livro El atroz encanto de ser argentino, fez questão de dar um "conselho" a Cristina.

"Presidente, por favor, não deixe seu marido continuar mandando no seu governo. O governo é seu e nós, argentinos, estamos esperando por esta gestão."
Mas há quem expresse ceticismo em relação a um possível afastamento de Kirchner - o marido - do governo da esposa.

"Eles atuam juntos. Estão juntos há trinta anos, no casamento e na vida política", disse a analista Graciela Römer, da consultoria Römer & Asociados, ao canal 26.

Já o consultor Eduardo Fidanza, da Poliarquía Consultores, disse à emissora TN (Todo Notícias) que Cristina pode fazer uma leve "maquiagem" no governo, mas não se deve esperar uma mudança profunda.

"Pode até ser que ela faça alguma maquiagem, com algumas mudanças de nomes, e que (Nestor) Kirchner se afaste por uns dias", afirmou. "Mas tudo indica que esse afastamento dele seria só mesmo por uns dias."
Outras iniciativas
Além do poder de influência de Kirchner no governo de sua esposa, discute-se na Argentina quais outras iniciativas Cristina deve adotar para retomar os eixos do governo.

"O governo está errando na forma de diagnosticar os problemas. Na disputa com o setor rural, falou em oligarquias e peões. Mas essa era a Argentina dos anos 40. Agora, o setor rural e sua relação com os trabalhadores e a produção é bem diferente", destacou Römer, da Römer & Asociados.

Já o economista Orlando Ferreres, da consultoria Ferreres & Asociados, disse à BBC Brasil que o governo tem espaço, nesta nova etapa, para "corrigir" alguns itens da sua política econômica, como a distribuição de subsídios ao setor privado.

"Hoje é a soja que gera forte arrecadação fiscal, que paga por estes subsídios", observou Ferreres. "E estes subsídios fazem com que os ricos paguem tarifas iguais às pagas hoje pelos menos favorecidos".

Para Ferreres, entre os desafios do atual governo estão ainda o combate à inflação e uma revisão das tarifas de serviços privatizados, congeladas desde a desvalorização do peso em 2001.

Cristina Kirchner chegou à Presidência no dia 10 de dezembro, mas quatro dos sete meses de seu governo foram dedicados à disputa com o setor rural.

"O pior que ela pode fazer agora é virar a página, como se nada tivesse acontecido. Aconteceu", afirmou Römer.

"Havia uma insatisfação popular que foi canalizada contra aquela medida para o setor rural. E o Congresso, ao rejeitar a medida, colocou um limite numa gestão que já estava fragilizada."
Após a derrota, Cristina evitou o atrito público com seu vice e colocou panos quentes nas tensões.

Deixando de lado a postura mais agressiva de alguns de seus seguidores que taxaram Julio Cobos de "traidor", a presidente preferiu falar rapidamente no episódio, usando a palavra "abandono" em um discurso na sexta-feira passada.

Na segunda-feira, apesar da expectativa, Cristina não tocou no assunto, durante cerimônia de reestatização da Aerolineas Argentinas.

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