Argentina condiciona Doha a concessões de países desenvolvidos

A Argentina só aceitará o acordo de liberalização do comércio mundial da Rodada Doha se os países desenvolvidos fizerem concessões, como a redução de barreiras tarifárias e cortes nos subsídios agrícolas, afirmou à BBC Brasil, na quarta-feira, o secretário de assuntos econômicos internacionais do Ministério das Relações Exteriores da Argentina, embaixador Alfredo Chiaradia. A postura do país vizinho vai de encontro às pretensões do Brasil, que defende a conclusão das negociações antes do final do ano.

BBC Brasil |

"Um acordo sem concessões não será possível", disse Chiaradia.

"Todos os que estão incentivando esse acordo terão que fazer concessões. Concessões na área de agricultura, onde os subsídios e barreiras tarifárias são altos. Também esperamos que nos peçam menos (cortes de tarifas) na área de indústria. Só assim vamos poder fechar a negociação em dezembro. Do contrário, ficaremos na mesma posição de julho (quando as negociações estancaram)", afirmou o embaixador.

Chiaradia negou que a postura da Argentina seja "protecionista" e acusou os países desenvolvidos de praticarem o protecionismo.

O embaixador ainda se mostrou insatisfeito com a postura do Brasil, que defende a conclusão nas negociações até o final do ano.

"O Brasil é o mais forte defensor (da conclusão das negociações). O razoável, porém, teria sido que tivéssemos nos entendido antes. Na Argentina, não vamos acompanhar nenhum acordo que não nos favoreça. E também sabemos que uma defesa muito forte (destes termos da Rodada Doha) afetaria o Mercosul", declarou.

Quando perguntado como as negociações poderiam afetar o bloco, ele respondeu: "Se um país do Mercosul (a partir de Doha) reduzir a TEC (Tarifa Externa Comum), provocará a deterioração do bloco".

A TEC é uma barreira tarifária comum do Mercosul às importações de produtos de terceiros, que atua como defesa de setores produtivos locais.

"Não queremos que ocorra um impacto negativo no Mercosul. Mas não somos nós que estamos impulsionando um acordo na OMC (Organização Mundial de Comércio) nos termos defendidos pelos países desenvolvidos", ressaltou.

Lula
Chiaradia é o principal negociador argentino nas questões econômicas internacionais. Suas declarações foram feitas pouco depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter voltado a defender, na quarta-feira, em Brasília, que os países se entendam e concluam as negociações da Rodada Doha.

Na ocasião, Lula afirmou que a conclusão da Rodada deixou de ser uma "oportunidade" e "hoje é necessidade urgente".

As negociações estão estancadas desde julho por causa de divergências entre os países industrializados e a maioria dos países emergentes. Mas o assunto voltou ao debate a partir do compromisso firmado pelos países do G20, na reunião do último sábado, 15, em Washington, nos EUA.

Para Chiaradia, a Argentina não foi contraditória ao assumir o compromisso do G20, já que apenas mostra-se aberta a "fazer esforço" nas negociações para a liberalização do comércio.

Protecionismo
Chiaradia afirmou ainda que a Argentina, ao contrário de outros países, não está preocupada com o prazo de dezembro para a conclusão das negociações, sugerido na reunião do G20.

"A Argentina não está preocupada com o tempo, mas com a substância (do acordo). Ninguém pode obrigar um país (a integrar a Rodada). Não temos condições de tomar medidas que vão afetar nossa indústria e postos de trabalho. O acordo prevê, por exemplo, cortes das tarifas do setor automotivo de 60%. Imagine, nesse momento (de crise internacional) em que os países estão subsidiando as montadoras, falar em corte de tarifas?".

Chiaradia defendeu a decisão do Brasil e da Argentina, anunciada na segunda-feira, 17, de aumentar a TEC para determinados produtos, como vinhos e laticínios.

Ele lembrou que a medida está dentro das regras da OMC e se justifica neste momento de crise financeira internacional.

"Os países ricos cobram tarifas absurdas para o setor agrícola e não têm vergonha disso. Nós temos tarifas ínfimas, uma média de 10% a 12% para todos os produtos do Mercosul. A nossa tarifa mais alta é de 35%", afirmou.

Chiaradia disse que, apesar disso, é a Argentina que vem ganhando fama de "protecionista".

"Aqui na região dizem que é a Argentina que é protecionista. Isso é falso. Os que dizem isso estão copiando o discurso dos outros (países ricos). Protecionistas são os que investem milhões em subsídios agrícolas e pedem abertura do nosso setor industrial, sem fazer concessões", insistiu.

As diferenças entre as posturas defendidas pelo Brasil e pela Argentina foram registradas em julho, em Genebra, gerando mal estar no governo argentino.

O Brasil apoiou a abertura do setor industrial para os países menos desenvolvidos. A Argentina foi contra.

Pouco depois, em uma visita a Buenos Aires, Lula voltou a defender a Rodada Doha. A seu lado, a presidente Cristina Kirchner deixou claro que pensa diferente.

Essas diferenças voltaram à tona nesta semana, após o compromisso firmado pelos países do G20 com a conclusão das negociações.

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG