Argentina abandonou plano que recuperou país, diz Lavagna

O ex-ministro da Economia do governo do presidente Néstor Kirchner, Roberto Lavagna, diz que a Argentina abandonou o plano econômico que levou o país a registrar taxas recordes de crescimento e tirou o país da sua pior crise recente. O plano de sucesso da Argentina mudou (.

BBC Brasil |

..). Durante quatro anos (2002-2006), ele estava baseado em seis pilares", afirma o ex-ministro que comandou a recuperação. Segundo ele, todos esses pilares mudaram e a inflação é hoje o principal problema argentino.

Lavagna foi ministro entre 2002 e 2005 e autor do plano econômico que incluiu a reestruturação da dívida argentina. Ele foi candidato à presidente em 2007, quando Cristina Kirchner foi eleita. Na campanha, fez oposição ao governo.

Nesta entrevista à BBC Brasil, em seu escritório em Buenos Aires, ele criticou a atuação do governo no conflito entre governo e ruralistas e afirmou que "a Argentina tem dificuldades para administrar tempos de bonança".

BBC Brasil - Qual a sua opinião sobre o conflito entre o governo de Cristina Kirchner e os ruralistas?
Roberto Lavagna - Acho que primeiro houve um erro técnico-econômico que foi o de colocar uma "retención móvil" (imposto que sobe ou desce de acordo com os preços internacionais) porque depois dos US$ 600 (pela tonelada de soja), a medida captava 95% do aumento do preço internacional. Esse é um valor muito alto e conseqüência de um erro técnico-econômico. Eu pensei que isso pudesse ser resolvido rapidamente, mas foram sendo cometidos erros políticos que levaram a esse conflito de mais de cem dias e só agora se abriu a possibilidade de uma saída, com a intervenção do Congresso, que até agora estava ausente. Era uma situação que vinha sendo levada, exclusivamente, pelo Poder Executivo.

BBC Brasil - Quando o senhor fala em erros políticos, a que se refere?
Roberto Lavagna - Primeiro erro político foi o de não se ter reconhecido que houve um erro técnico e continuar insistindo nessa medida e levando o setor rural a adotar postura cada vez mais dura. E o governo começou a mandar mensagens agressivas e cheias de mensagens eleitorais. Em cem dias foram realizados quatro comícios da presidente (Cristina Fernández de Kirchner), sendo dois em Buenos Aires, um em Salta e outro na Grande Buenos Aires. E ela fez quatro discursos mais no salão branco (da Casa Rosada, sede da Presidência da República). Ou seja, oito discursos em cem dias, com interpretações históricas erradas ou sobre a agricultura. (Ela) chegou a dizer que a soja era um "capim" e que a Argentina havia passado por 200 anos de decadência que terminaram quando começou o governo de Kirchner (Néstor Kirchner - 2003-2007). Ou seja, são exageros, como as afirmações de que os ruralistas haviam participado dos golpes de 1930, 1955 e 1976. É um exagero explicar com esses fatos do passado o que está ocorrendo agora em 2008. Um exagero político que foi impossibilitando o diálogo.

BBC Brasil - O plano econômico que o senhor implementou, entre abril de 2002 e 2005, mudou?
Roberto Lavagna - As primeiras mudanças foram menos visíveis, mas a acumulação foi transformando o plano original. Quando saímos do governo em dezembro de 2005, o superávit fiscal era de quatro pontos e meio em relação ao PIB (Produto Interno Bruto). Desse total, nos últimos dois ou três anos, perderam-se dois pontos e meio. E a última modificação é a de permitir a queda no preço do dólar (hoje em torno dos 3,04 pesos por dólar e com perspectiva de caída maior). Essa é uma diferença fundamental.

BBC Brasil - A Argentina vinha crescendo cerca de 9% por ano, mas esse resultado não deve ser repetido neste ano. A economia do país entrou numa fase de desaceleração?
Roberto Lavagna - O crescimento desacelerou sim. O crescimento real nos primeiros cinco meses deste ano deve estar em 5,5%, no máximo 6% (janeiro-maio de 2008 frente ao mesmo período de 2007). O governo fala em cerca de 8%. Mas o governo também coloca os preços para baixo e eles estão subindo.

BBC Brasil - Qual é hoje a inflação real da Argentina?
Roberto Lavagna - Nos últimos doze meses, 25% no acumulado (maio do ano passado a maio deste ano).

BBC Brasil - O governo informa que ela é de cerca de 10%.

Roberto Lavagna - Não, fala em menos ainda, em torno de 8%.

BBC Brasil - Qual a razão original para a alta da inflação na Argentina?
Roberto Lavagna - Gastaram dois pontos e meio percentuais de superávit fiscal e esse é um dos principais motivos. Dois pontos e meio em dois anos é muito.

BBC Brasil - O que a Argentina precisa fazer para não entrar em uma nova crise econômica?
Roberto Lavagna - O plano de sucesso da Argentina durante quatro anos estava baseado em seis pilares. Superávit fiscal alto, dólar alto, juros baixos, redução da dívida, consumo como motor do crescimento e dos investimentos e distribuição de renda.

BBC Brasil - Destes seis pilares, poderia se afirmar...

Roberto Lavagna - O superávit cresceu, o dólar caiu, os juros subiram, a dívida está subindo. E a inflação está fazendo com que parte do poder de compra da população caia e há pior distribuição de renda e em conseqüência se enfraquece o consumo. E (...) os investimentos não chegam porque o consumo cai.

BBC Brasil - Costuma-se dizer que a Argentina entra numa crise a cada dez anos. É verdade?
Roberto Lavagna - A Argentina tem dificuldade para administrar situações de relativa bonança. No final de 2005, a Argentina tinha uma oportunidade excepcional.

BBC Brasil - E agora?
Roberto Lavagna - Essa oportunidade hoje é menor que em 2007, que em 2006 e 2005. É preciso agir rápido.

BBC Brasil - Começando por onde?
Roberto Lavagna - São muitas coisas. E algumas não têm a ver diretamente com a economia, mas sim com o institucional. (..). E é preciso uma política internacional mais próxima de seus sócios estratégicos, como Brasil, Uruguai e Chile e mais distante da Venezuela (hoje, compradora dos bônus da Argentina).

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