Áreas não atingidas por ciclone votam constituição amanhã em Mianmar

Ángel Escamis Yangun (Mianmar), 9 mai (EFE).- As áreas de Mianmar (antiga Birmânia) não atingidas pelo ciclone Nargis votarão amanhã em plebiscito o projeto constitucional redigido pela Junta Militar, que ignorou os pedidos de suspensão do referendo devido à tragédia.

EFE |

O regime anunciou há três dias o adiamento para o dia 24 de maio da consulta popular nas divisões de Yangun e do delta do rio Irrawaddy, as áreas mais devastadas pelo "Nargis", que já causou pelo menos 23 mil mortos no país, e deixou mais de 42 mil desaparecidos e um milhão e meio de deslocados.

A oposição democrática, que foi excluída do processo de redação da futura Carta Magna, pediu sem sucesso que o Governo adiasse a reunião no resto do país, enquanto o aparelho de propaganda da Junta Militar continua a esconder da população a verdadeira magnitude da catástrofe.

O regime anunciou em fevereiro passado a realização do plebiscito constitucional, primeiro passo de seu plano para o retorno à democracia que terminará, segundo o planejamento, com eleições parlamentares em 2010.

No entanto, a líder da oposição democrática e ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi, não poderá concorrer no pleito se o texto constitucional for aprovado.

Suu Kyi é viúva do professor universitário britânico Michael Aris e seus dois filhos têm passaporte do Reino Unido, circunstâncias que, segundo o projeto, a desqualificam como candidata à chefia do Estado.

Mianmar não realiza eleições parlamentares desde 1990, quando o partido oficial foi esmagado pela Liga Nacional pela Democracia (LND), de Suu Kyi, em resultados que jamais foram reconhecidos pelos generais.

A LND, o movimento estudantil, grupos civis e religiosos e as minorias étnicas rejeitam o projeto, considerado por eles uma operação de maquiagem visando perpetuar o mandato da hierarquia militar, no poder há 46 anos.

Caso seja aprovada, a Carta Magna reservará aos militares um quarto das cadeiras do Parlamento, além de cargos em ministérios importantes.

Para assegurar-se que contará com o respaldo do povo, a Junta Militar persegue e detém há semanas todos os que ousarem fazer campanha contra o plebiscito, segundo o grupo Human Rights Watch.

Inclusive propõe aos reclusos da sórdida prisão de Insein, ao norte de Yangun, uma redução em suas penas caso votem a favor do texto.

Os meios de comunicação do aparelho de propaganda estatal afirmam diariamente que a obrigação de todo birmanês patriota é votar "sim", enquanto acusam os demais de tentar fragmentar a união nacional.

Em particular, o Governo quer evitar a todo custo que voltem a ocorrer os atos de protesto de setembro do ano passado.

O pagode de Shwedagon, de onde partiram as manifestações pacíficas a favor da democracia lideradas pelos monges budistas em setembro passado, foi fechado pelas autoridades e os comerciantes das redondezas receberam a ordem de fazer o mesmo com seus pontos de venda de lembranças.

No entanto, moradores deste bairro de Yangun disseram que desde o mês passado grupos de até cem pessoas, entre elas alguns religiosos, realizaram concentrações esporádicas no bairro, antes de fugir da perseguição das forças de segurança.

"Aparecem de repente, em pequenos grupos, e entre eles há sempre mais de uma dezena de monges", relatou um morador de 73 anos que pediu o anonimato por motivos de segurança.

O outro ponto nevrálgico da onda de manifestações ocorrida há oito meses, o pagode de Sule, no centro histórico de Yangun, está fechado há várias semanas.

"As pessoas estão muito incomodadas com o Governo devido à alta dos preços dos alimentos", disse Maung Thaw, dono de uma mercearia na área.

O regime sabe disso, e por isso vigia os cidadãos com pequenas patrulhas dos serviços de inteligência, vestidas à paisana, mas que deixam à mostra as pistolas que levam na cintura.

A prioridade é evitar incidentes, e não saber se o povo está suficientemente informado do projeto constitucional, como demonstram as poucas lojas que ainda vendem exemplares do texto ao preço de 1.200 quiates (quase US$ 4 no câmbio oficial).

Em uma nação onde a metade da população vive com menos de US$ 1 por dia, os birmaneses preferem dispor de um pouco de arroz para se alimentar do que saber do futuro que o regime militar os reserva.

EFE mfr/ev/gs

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