Enrique Rubio. Tânger (Marrocos), 27 nov (EFE).- Árabes e israelenses apresentaram hoje as diferenças que os separam de um eventual acordo de paz, no marco de um fórum euro-mediterrâneo reunido hoje no Marrocos, quando se completa um ano da Conferência de Annapolis.

O fórum MEDays, realizado em Tânger como banco de idéias para a União pelo Mediterrâneo (UPM), deixou claro que a situação não mudou muito após a reunião de Annapolis (EUA), que definiu as bases para um acordo de paz antes do final de 2008.

Os representantes árabes -o embaixador palestino em Rabat, Hassan Abderrahmane, e o representante da Liga Árabe Naciri Mohammed el Fatah- acusaram Israel de descumprir as promessas feitas na cidade americana.

"Se observamos a situação, vemos que todas as promessas israelenses foram descumpridas. Enquanto, nas mesas de diálogo e fóruns como este, vemos uma atitude, a realidade na Palestina é muito diferente", disse Abderrahman.

O embaixador palestino, que falou em nome do chefe dos negociadores palestinos, Saeb Erekat, que declinou sua presença no último momento, referiu-se ao "aumento de barricadas e assentamentos" e ao "lugar de Gaza" como provas da pouca vontade israelense.

"É preciso dizer a Israel que a paz não é só um slogan", sentenciou Abderrahman perante o aplauso de muitos dos presentes.

Por sua parte, o diretor-geral de Relações Exteriores israelense, Aharon Abramowitz, rejeitou estes ataques e argumentou que seu país pretende conseguir a segurança antes de avançar.

Abramowitz lembrou que, no ano que transcorreu desde Annapolis, se realizaram 251 reuniões, em diferentes níveis, entre israelenses e palestinos e que se investiram "muitos esforços" nas negociações.

Ao mesmo tempo, o israelense acusou aos países árabes de não terem feito o suficiente para apoiar o diálogo.

"Necessitamos de um apoio efetivo dos árabes a Abu Mazen (apelido do presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas), do compromisso de que apoiarão os avanços alcançados e que não permitirão ao Hamas que tome o controle", assinalou.

O representante da Liga Árabe negou taxativamente as palavras de seu interlocutor, e afirmou que os países que compõem esta instituição propuseram uma iniciativa em 2002 -aprovada em uma cúpula na Arábia Saudita- à qual Israel não compareceu.

Segundo El Fatah, as soluções para resolver o conflito com Israel "já são conhecidas", como, segundo ele, se demonstrou durante a Presidência nos EUA de Bill Clinton (1992-2000), e, por isso, falta que a comunidade internacional, especialmente este país e a União Européia ponham todo seu peso nas negociações.

"Normalização? Sim, mas a um preço", resumiu El Fatah sobre a posição dos países árabes.

Entre acusações, poucos se lembraram do motivo que lhes reunia hoje em Tânger: a União pelo Mediterrâneo, o primeiro organismo regional que agrupa israelenses e árabes.

O ex-ministro israelense de Relações Exteriores Shlomo Ben-Ami, um dos poucos que aprofundou sobre a UPM, se perguntou se esta nova instituição poderá ajudar a construir um espaço de diálogo e confiança entre ambas as partes.

Ben-Ami evocou o economista inglês John Maynard Keynes, quando este, após a 1ª Guerra Mundial, deixou escrito que a paz se faz também através da economia, para lembrar a importância de abrir novas bases de relação com os países árabes.

No entanto, o tom geral do fórum não respondeu às palavras de esperança que o ministro espanhol de Relações Exteriores, Miguel Ángel Moratinos, tinha manifestado a um grupo de jornalistas a noite anterior, na inauguração do MEDays.

Para Moratinos, "pela primeira vez árabes e israelenses compartilham uma visão de futuro", pelo que advogou por que a UPM seja "um marco no qual todos tenham capacidade de diálogo e que crie as condições para facilitar a solução definitiva a alguns dos problemas históricos que afetaram a estabilidade da região".

O MEDays, uma iniciativa do centro de estudos marroquino Instituto Amadeus, continuará seus trabalhos até amanhã, sexta-feira, quando se espera que se faça pública a chamada Declaração de Tânger. EFE er/jp

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