Um grupo de mulheres argentinas começou este ano a realizar caminhadas todas as quintas-feiras, na tradicional Praça de Maio, em frente à Casa Rosada, sede da Presidência, para pedir o combate às drogas e melhores condições para recuperar os filhos dependentes químicos. Elas formaram a associação Hay otra esperanza (Existe outra esperança, em tradução livre) e ficaram conhecidas como as mulheres dos lenços negros, porque usam um lenço de tecido preto na cabeça durante os protestos.

Algumas delas contaram à BBC Brasil que chegaram a entregar os filhos à polícia, na tentativa de evitar que voltassem a se drogar.

"O juiz me criticou. Eu disse que preferia meu filho preso, mas vivo", disse, às lágrimas Graciela Mirta Izquierdo, de 51 anos.

Mãe de cinco filhos, Izquierdo lamenta que, com a prisão, o filho tenha ficado com a ficha suja na polícia.

"Mas pelo menos agora ele tem a chance de ser salvo", afirmou.

Nahuel, de 21 anos, filho de Graciela Izquierdo, está internado há seis meses em uma clínica de reabilitação de Buenos Aires. Ela conta que amarrou uma corrente no pescoço do filho para conseguir levá-lo à clínica.

"No meu desespero para salvá-lo comprei dois metros de corrente e apertei forte no pescoço dele. Eu o arrastei até a clínica e hoje acho que ele está salvo por isso. Mas cada vez que lembro do que fiz, sinto uma terrível tristeza", contou Graciela.

Nahuel é o segundo filho da argentina que se tornou dependente químico. O primeiro, José, de 25 anos, está "curado" há dois anos, após tratamentos.

Na Praça de Maio, Izquierdo lidera a caminhada com um megafone.

"Chega de drogas. Temos que parar de fingir que o problema não existe, que a venda e a dependência química, não existem no país", disse ela no megafone.

Graciela Izquierdo contou que a ideia de usar os lenços pretos foi inspirada na luta das Mães da Praça de Maio, que usam um lenço branco na cabeça e fazem caminhadas na mesma praça.

As "Mães da Praça de Maio" formam uma entidade que reúne desde os anos setenta mulheres que procuram os filhos sequestrados e desaparecidos durante a ditadura (1976-1983).

Segundo Graciela Izquierdo, o objetivo das caminhadas é conquistar políticas públicas de combate às drogas, principalmente, contra a venda do "paco" - uma sobra da cocaína.

O presidente da Comissão de Prevenção às Dependências Químicas da Câmara Estadual de Buenos Aires, o deputado Sebastián Cinquerrui, disse à BBC Brasil que o consumo do paco aumentou de maneira significativa depois da crise econômica enfrentada pelo país em 2001.

"No setor de drogas, a Argentina tem um antes e um depois da histórica crise de 2001. Foi depois daquele desastre político e econômico que este resto da cocaína, que antes era jogado fora, passou a ser vendido entre as crianças e adolescentes das favelas", disse Cinquerrui.

"Primeiro tinha o mesmo preço que um picolé, mas hoje já é consumido por jovens de classe média e é cada vez mais caro", disse ele.

Segundo dados oficiais do Sedronar (Secretaria de Programação para a Prevenção do uso das Drogas e da Luta contra o Narcotráfico), a Pasta Base de Cocaína (PBC), nome técnico do paco, já é a terceira droga mais oferecida aos possíveis consumidores, atrás da maconha e da cocaína.

De acordo com o Sedronar, o consumo do paco subiu 200% entre 2001 e 2005 - um aumento que estaria relacionado ao aumento da pobreza e das diferenças sociais a partir da crise de 2001.

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