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Estagiários asiáticos ameaçam empregos de brasileiros no Japão

As indústrias japonesas estão contratando estagiários de outros países asiáticos a um baixo custo, ameaçando a mão-de-obra brasileira no Japão. Somente na cidade de Minokamo, na província de Gifu, por exemplo, o número de filipinos cresceu quase três vezes mais do que o de brasileiros no último ano.

BBC Brasil |

O município abriga hoje 3.747 brasileiros e 1.489 filipinos.

Os brasileiros e filipinos concorrem principalmente às vagas na fábrica local da Sony. "A vantagem deles (filipinos) é que não reclamam do serviço e nunca faltam", analisa Márcio Nakamura, funcionário de uma empresa de recursos humanos que emprega brasileiros e filipinos na indústria.

"Esses estagiários são uma mão-de-obra muito barata para o Japão", explica o professor Edson Urano, da Universidade Sophia de Tóquio.

Especialista na área de relações industriais, sociologia do trabalho e migrações internacionais, o pesquisador revela também que o fato desta população ser migrante, temporária, rotativa e de fácil controle faz com que seja uma boa opção para os empregadores.

"Isso já não ocorre com os trabalhadores brasileiros, que virtualmente possuem direitos trabalhistas, já se fixaram no país e não aceitam um valor muito baixo de salário", compara o professor.

Salários

Um estagiário chinês recebe em média de US$ 100 a US$ 300 líquidos por mês. O valor é cerca de um décimo do que ganha um estrangeiro com visto de trabalho regular ou quase 20 vezes menor do que o custo de um trabalhador japonês contratado.

"É uma verdadeira violação dos direitos humanos", critica Urano. "A grande questão implícita não é em relação ao custo da produção, mas sim que tipo de país e de modelo de sociedade o Japão almeja", questiona.

Para ele, as indústrias estão escolhendo um caminho em que a vida das pessoas não é levada em conta.

Pela lei, estes estagiários chegam ao país como aprendizes e ficam um ano na assimilação de conhecimentos básicos. Depois disso, eles podem passar para a outra fase, que é o do treinamento prático, no qual assinam contrato de trabalho por dois anos.

Seleção natural

Com o agravamento da crise mundial - que fez com que as maiores empresas japonesas anunciassem cortes na produção e, conseqüentemente, corte de funcionários -, o mercado de trabalho ficou ainda mais competitivo.

"Como há pouca oferta de empregos e, portanto, maior concorrência, está havendo uma seleção natural no mercado, que prefere aqueles mais qualificados", conta Julio Nakazaki, da empresa de recursos humanos Just One.

Segundo ele, os chineses levam grande vantagem sobre os brasileiros, por causa do conhecimento do idioma local. "O brasileiro acomodou-se muito nesses anos. Hoje tem intérprete até na polícia, então muitos não viram a necessidade de estudar o japonês", explica.

Qualidade dos brasileiros

Apesar da situação nada favorável, muitas empresas, no entanto, preferem economizar com treinamento de funcionários e investir em quem já está habituado ao trabalho, o que seria um trunfo dos brasileiros.

Um artigo publicado no livro Controlling Immigration (Controlando a Imigração) diz que os nikkeis são vistos como bons trabalhadores por seus empregadores. Além disso, pesa contra os chineses e coreanos os fatos históricos, já que eram no passado povos rivais do Japão.

"Com esta crise pode até ser que haja um aumento na contratação de asiáticos, no geral, mas não penso que isso vá substituir a mão-de-obra brasileira porque dizem que o nosso rendimento no trabalho é maior", comprova Nakazaki.

Necessidade iminente

A chegada da recessão levou muitos brasileiros a pensar na volta definitiva ao país natal. Apesar do cenário nem um pouco animador da economia local, será muito difícil a comunidade brasileira simplesmente sumir do arquipélago.

Uma análise profunda sobre o destino da sociedade japonesa mostra uma queda dramática no contingente populacional. Se o ritmo de crescimento do país ficar do jeito que está, em 100 anos a população nipônica terá sido reduzida a quase um terço dos 127 milhões atuais.

Neste sentido, o arquipélago necessita, hoje, segundo a ONU, importar 640 mil trabalhadores estrangeiros apenas para manter o mesmo nível do mercado de trabalho.

Sendo assim, os atuais 317 mil brasileiros dificilmente serão descartados como mão-de-obra num futuro próximo.

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