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Déjà vu , jamais vu

Todas as eleições têm histórias, mas poucas são históricas. Esta tem histórias e é histórica.

BBC Brasil |

Amanhã, um negro com Hussein no nome pode se eleger presidente dos Estados Unidos.

Uma eleição que começou há 21 meses - e em março deste ano as pesquisas indicavam uma final entre Hillary Clinton e Rudy Giuliani. Já se falava em sub-prime, mas não era manchete. Nem recessão mundial, depressão, deflação.

Em Iowa, um Estado conservador com 95% de brancos, a história mudou de rumo. Hillary, a favorita, foi derrotada. As forças de Obama multiplicaram, mas em setembro, depois da convenção republicana, o senador McCain liderava nas pesquisas, graças em parte, à sua escolha para vice, a governadora Sarah Palin, do Alasca.

Naquele mês, Barack Obama atraiu 632 mil novos contribuintes para a campanha que mandaram, em média, US$ 87, pela internet. Ao todo a campanha do democrata arrecadou mais de US$ 300 milhões em pequenas doações, número inédito e recordista.

Com os cofres cheios, usando o modelo republicano para localizar e atrair eleitores, Barack Obama montou uma das campanhas mais agressivas, disciplinadas e caras da história americana. Para cada candidato que os republicanos registraram, os democratas registraram quatro.

Nunca um candidato tinha atraído cem mil pessoas para um comício e isso aconteceu pela primeira vez em St Louis, no Missouri, na praça onde o tribunal que ainda esta lá, derrotou o primeiro processo de um negro exigindo sua liberdade da escravidão.

O efeito Bradley é uma das esperanças republicanas. Em 1982, Tom Bradley, o prefeito democrata de Los Angeles, era o candidato favorito pelas pesquisas para governador da Califórnia com uma margem aparentemente imbatível contra o republicano. E perdeu.

Analistas interpretaram a derrota como um fenômeno que ficou conhecido como "efeito Bradley". Pelo "efeito" nas pesquisas 6% dos eleitores brancos dizem que vão votar no negro, mas no escurinho da urna votam no branco. Vários estudos mostram que o "efeito Bradley " foi um defeito de análise, mas o componente racial ainda entra na equação desta campanha.

Este ano fala-se também no efeito "paper bag", o republicano que fala que vai votar em McCain mas se "esconde" debaixo de uma sacola de papel e vota no democrata.

Nem o efeito Bradley nem a sacola de papel vão definir esta eleição. Um dos fatores mais importantes será o voto contra George W. Bush. Nada revolucionário. Eleger um negro é uma revolução, mas há um déjà vu em 2008.

Na eleição de 1908, os Estados Unidos ocupavam as Filipinas. O candidato republicano defendia a ocupação com o argumento de que o país entraria numa caótica guerra civil sem a presença das tropas americanas. O democrata defendia uma saída acelerada.

A outra questão era econômica. Muitos bancos tinham quebrado em 1907 e milhares de americanos perderam seus depósitos. Os democratas pediam maior regulamentação dos bancos. Os republicanos queriam mais proteção para os banqueiros. O país estava em recessão.

Thomas Edison tinha inventado o fonógrafo, um aparelho que gravava voz. Em dois minutos, no máximo, um candidato podia dar seu recado. Noventa e nove por cento dos americanos nunca tinham visto ou ouvido a voz de um candidato à Presidência. Viajar em busca de votos era considerado vulgar. Alguns candidatos faziam discursos nas portas das suas casas.

Edison pagou US$ 500 - uma fortuna - a cada um dos candidatos para gravar seus discursos de dois minutos, que eram vendidos por US$ 0,35. Marqueteiros enchiam auditórios e tocavam os discursos sobre os tópicos da época, o equivalente aos debates de hoje. O republicano Taft ganhou a eleição.

Cem anos depois, o candidato democrata ganhou os três debates pela televisão, encheu os cofres graças à grande invenção da época - a internet - é favorito porque promete tirar as tropas do Iraque e controlar os bancos. O país está em recessão. Déjà vu.

O jamais vu é um negro na Presidência dos Estados Unidos.

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