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Ainda aposto na vida aqui , diz artista plástico

O artista plástico e iluminador teatral baiano Jorge de Souza chegou a Barcelona há três anos com a intenção de trabalhar e morar no país. Apaixonado por Gaudí, Jorge estava querendo mudar de ares, e escolheu Barcelona por ser uma cidade de praia, com várias opções culturais e com idioma parecido com o português.

BBC Brasil |

O baiano de Salvador tinha dois contatos na cidade, mas eles sumiram depois de sua chegada. "Esta foi a primeira de muitas decepções", diz ele, que, no entanto, não perde a esperança de ficar na Espanha.

Desempregado desde janeiro e sem pagar o aluguel há dois meses, o artista plástico agora tenta obter a residência, para ter melhores chances no mercado. Ele contou sua história à BBC Brasil.

"Vim para cá com a intenção de trabalhar, e por trabalhar entende-se qualquer coisa que te ofereçam. Eu tinha uns dois contatos e esses dois contatos acabaram virando coisas infrutíferas. Essas pessoas só chegaram e disseram que Barcelona é a melhor cidade da Espanha, seja bem vindo e me esqueça.

Esta foi uma das muitas decepções, porque são várias. A gente vai aprendendo, tomando na pele, essas coisas.

De cara, meu primeiro emprego foi bem parecido com o que eu fazia no Brasil. Eu coloquei um anúncio em um site na internet e me responderam. Era um emprego para cobrir férias de um rapaz que trabalhava como VJ (iluminador) em uma discoteca.

Acabei ficando com a vaga quando ele saiu de lá, mas depois a discoteca fechou para reformas. A obra durou anos, e quando acabou, já havia começado a crise e eu estava me virando por outros lados.

A crise começou na Espanha em dois setores, o da a imobiliária e o da construção civil. Eu estava trabalhando com instalações de domótica (automação de casas), que era um trabalho na construção civil, mas que não era um trabalho pesado, era um trabalho mais ou menos técnico. Eu fui um dos primeiros a ser demitido nessa onda. Daí eu parti para o ramo da hotelaria, que é o setor de bares e restaurantes, trabalhei muito tempo como garçom e fui me virando.

Estou sem emprego fixo desde janeiro de 2009, não pago aluguel há dois meses e, nesta semana, me cadastrei junto à paróquia local para receber doação de alimentos da Cáritas. Desde junho passei a fazer panfletagem, distribuindo anúncios de festas. Para cada pessoa que vai à discoteca, recebo 2 euros, mas as pessoas não tem dinheiro, então, não vão à discoteca.

Eu acesso todos os dias o site Locquo.com, para procurar emprego. Nesse site, quando colocavam anúncios de empregos para garçons, antes a gente via que 50 pessoas tinham se interessado. Hoje, você vê o mesmo anúncio e vê que 1.500 pessoas clicaram na página.

Antes, nos carros que recolhem o lixo, a gente só via imigrantes trabalhando. Hoje em dia, só se vê espanhóis. Jovens, com piercing no nariz, você vê que são espanhóis que trabalhavam em outros setores e agora, com a crise, estão buscando vagas que eram ocupadas por imigrantes.

Quando a gente trabalha em um restaurante, às vezes, nossos colegas espanhóis vêm dizer de forma muito agressiva que a gente veio para cá roubar o trabalho deles quando, na verdade, eles rejeitavam esse tipo de trabalho. Os imigrantes vieram para cá ocupar os trabalhos que eles não queriam.

Mesmo com a crise, não penso em voltar. Eu acho que se aqui está ruim, no Brasil está pior. Claro, no Brasil a gente tem a família, um certo apoio. Mas não vivo com minha mãe desde os 19 anos de idade. Voltar agora e reatar esse cordão umbilical é um retrocesso e eu não quero isso. Aqui, a gente está começando o verão, já se vê a possibilidade de um maior fluxo de turistas e é possível que a economia volte a se aquecer neste setor de bares e restaurantes. Eu estou esperando por isso."

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