Após novas sanções, Irã propõe negociar sem condições

Sob pressão desde junho por causa de seu programa nuclear, Teerã propõe retomar diálogo sobre troca de combustível atômico

iG São Paulo |

O Irã anunciou nesta segunda-feira estar disposto a retomar "sem condições" as negociações sobre uma troca de urânio pobremente enriquecido por combustível nuclear para a utilização para fins civis. O anúncio foi feito pouco depois de a União Europeia (UE) aprovar sanções mais duras contra o país , incluindo uma iniciativa para bloquear investimentos no setor de petróleo e gás. A decisão da UE foi tomada durante uma reunião dos ministros das Relações Exteriores em Bruxelas. Em meio a isso, o governo canadense anunciou medidas de caráter semelhante.

O conteúdo integral do documento apresentado pelo Irã, no entanto, ainda não foi divulgado.
As novas negociações devem ter como base o acordo proposto pelos governos brasileiro e turco, que previa que o Irã enviasse 1,2 mil quilos de urânio levemente enriquecido à Turquia para, em troca, receber urânio altamente enriquecido. O combustível teria como destino um reator nuclear supostamente utilizado para pesquisas médicas em Teerã.

A proposta do Brasil e da Turquia – apresentada em meados do mês de maio - recebeu ressalvas do grupo formado pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (EUA, Grã-Bretanha, França, Rússia e China) e a Alemanha, o chamado P5 + 1.

Novas sanções

As restrições aprovadas pelos ministros das Relações Exteriores da UE vão bem além das sanções aprovadas pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) em 9 de junho, incluindo medidas para bloquear a negociação com bancos e seguradoras iranianas e para evitar o investimento no lucrativo setor de petróleo e gás de Teerã, até mesmo o de refinaria. "Esse é o pacote de sanções mais importante que a UE já adotou contra o Irã ou outro país qualquer", destacou um diplomata.

A UE e o Canadá querem atingir principalmente o setor das indústrias de petróleo e gás. A partir desta terça-feira, a UE proíbe qualquer novo investimento, assistência técnica ou transferência de tecnologia, especialmente para o refino de petróleo e a liquefação de gás. Esse domínio é sensível: apesar de o Irã ser o quarto produtor mundial de petróleo, o país importa cerca de 40% de sua gasolina por não possuir capacidade de refinar e satisfazer sua demanda interna.

Além da energia, o setor iraniano do transporte por frete, via mar ou ar, será duramente atingido - o controle em portos europeus ou em alto-mar será reforçado. As trocas comerciais devem ser dificultadas, a atividade de oito novos bancos iranianos será proibida, as transações financeiras superiores a 40 mil euros com o Irã sem autorização especial serão interditadas e a lista de pessoas privadas de vistos ou vítimas de congelamento do direito vai sofrer um aumento visível. O principal alvo são as Guardas da Revolução, o Exército ideológico do regime.

"Espero que o Irã tenha entendido a mensagem. Os países europeus estão abertos a negociações sobre seu programa nuclear, mas, se ele não responder, vamos pressionar ainda mais", preveniu nesta segunda-feira o ministro britânico das Relações Exteriores, William Hague, referindo-se à recusa do Irã de suspender suas atividades de enriquecimento de urânio, que a comunidade internacional suspeita ter fins militares. O Irã nega, dizendo que seus objetivos são apenas civis.

Negociações

Comentando uma carta apresentada pelo Irã à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o enviado do Irã à agência nuclear da ONU, Ali Asghar Soltanieh, afirmou que "a mensagem clara desta carta é a completa prontidão do Irã para manter negociações sobre o combustível para o reator de Teerã sem nenhuma condição".

O anúncio parecia ser uma iniciativa do país persa de mostrar disposição para negociar, já que uma série de sanções da ONU, da UE e dos Estados Unidos intensificam a pressão sobre o país. Não está claro, porém, se a oferta para negociação da troca de combustível seria o suficiente para aplacar as potências mundiais.

"Este é o momento (para os adversários do Irã) provarem que também estão determinados a vir da confrontação e da negociação e conversar", disse Soltanieh à iraniana Press TV. "Tendo dito isso, é decepcionante que haja notícias sobre os gestos negativos destrutivos que colocam em risco o ambiente propício", acrescentou ele, referindo-se às sanções anunciadas nesta segunda-feira.

A União Europeia informou nesta segunda-feira que o objetivo da nova série de sanções era fazer o Irã voltar às negociações sobre o programa de enriquecimento de urânio, admitindo a possibilidade de as conversações ocorrerem nas próximas semanas.

*Com Reuters e BBC

    Leia tudo sobre: irãprograma nucleareuasançõesunião europeia

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG