Lutffullah Ormurl Cabul, 25 ago (EFE).- O Governo afegão, presidido por Hamid Karzai, decidiu hoje revisar a presença de tropas internacionais no país e regular suas responsabilidades por meio de um acordo, após se indignar com os recentes massacres civis em bombardeios.

Após uma reunião em Cabul, o Conselho de Ministros emitiu um comunicado em que "expressou sua profunda tristeza pela perda de tantas vidas civis durante os recentes bombardeios em Herat".

Cerca de 90 civis, na maioria crianças, morreram em um bombardeio da coalizão americana no distrito de Shindand, na província ocidental de Herat, segundo investigações do Governo na região.

Em comunicado, o Executivo afegão diz que discutiu "repetidamente" o assunto das baixas civis com as forças internacionais, às quais pediu "que parem todos os bombardeios aéreos sobre alvos civis, especialmente nos povoados afegãos".

"Infelizmente, até o momento, nossas demandas não foram atendidas. Ao contrário. Mais civis, incluindo mulheres e crianças, estão perdendo a vida como resultado dos bombardeios", condenou o Governo de Karzai.

Portanto, o Executivo decidiu encomendar aos Ministérios da Defesa e de Assuntos Exteriores "que comecem negociações com os oficiais das forças internacionais" sobre sua presença no país.

"A presença da comunidade internacional no Afeganistão deve ser revisada por meio de um acordo mútuo", pediu o Governo.

Além disso, "a autoridade e a responsabilidade das forças internacionais no Afeganistão devem ser reguladas por meio de um 'acordo sobre o status de força' que seja consistente com as leis afegãs e internacionais".

O Governo exigiu o fim dos "bombardeios contra alvos civis, as operações de busca em domicílios sem coordenação e as prisões ilegais de afegãos", segundo o comunicado.

Na nota oficial, o Executivo não só menciona Herat, mas uma longa lista de outras localidades onde morreram civis em recentes ataques das forças estrangeiras destacadas no país.

Os soldados internacionais estão no Afeganistão "a convite" do Governo local.

A Otan desdobrou mais de 50 mil membros da Força Internacional de Assistência à Segurança (Isaf), quase a metade deles americanos, que contam com mandato da ONU.

Além disso, os EUA comandam uma coalizão que cumpre a missão antiterrorista Liberdade Duradoura e conta, em sua maioria, com soldados americanos (cerca de 15 mil).

A coalizão americana declarou que o bombardeio de sexta-feira em Shindand deixou 30 talibãs mortos.

No dia seguinte, após o Governo afegão denunciar a morte de pelo menos 78 civis, 50 deles crianças, o comando americano declarou que averiguaria o ocorrido.

No mesmo sábado, Karzai condenou o bombardeio e acusou a coalizão de não ter coordenado sua ofensiva com as forças afegãs.

Após anunciar uma investigação, o presidente afegão disse que seu Governo tomaria "todas as medidas necessárias" para evitar que desgraças deste tipo se repitam.

Antes de anunciar sua decisão de revisar a presença de tropas internacionais no país, Karzai destituiu os dois responsáveis do Exército afegão na região ocidental: o general Jalandar Shah e o major Abdul Jabbar.

Em outro comunicado emitido hoje, o presidente afirmou ter se reunido com o chefe do Parlamento, Mohammad Younus Qanooni, e outros membros da câmara, que "pediu que se regule a presença, a autoridade e a responsabilidade das forças internacionais no país" e apoiaram as decisões do Governo.

Segundo a Comissão Independente de Direitos Humanos do Afeganistão (AIHRC, na sigla em inglês), mais de 900 civis morreram no país neste ano em operações das forças internacionais e ataques da insurgência talibã.

A Organização do Tratado do Atântico Norte (Otan) lembrou hoje que suas tropas no Afeganistão estão sobre a base de um mandato claro da ONU que os aliados continuam considerando "válido".

Segundo a porta-voz adjunta da Otan, Carmen Romero, a organização não recebeu, por enquanto, nenhuma notificação por parte do Governo afegão sobre sua intenção de "revisar" a presença internacional no país. EFE lo/rb/rr

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