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Após longa batalha judicial, escritor Victor Hugo ganha seguidor legal

Javier Alonso.

EFE |

Paris, 21 dez (EFE) - As livrarias francesas têm desde o último sábado em suas prateleiras um seguidor "legal" das obras de Victor Hugo, o também francês François Cérésa, e os herdeiros do ilustre autor de "Os Miseráveis" não poderão impedi-lo.

Apesar de os livros de Cérésa que dão continuidade à trama original de "Os Miseráveis" estarem à venda há sete anos, até agora a Justiça francesa não tinha se pronunciado definitivamente sobre as reivindicações dos herdeiros de Victor Hugo, que tinham disputado este tempo todo para impedir isso.

Em 2001, a editora Plon publicou as obras de Cérésa "Cosette ou le temps des illusions" ("Cosette ou o tempo das ilusões", em tradução livre) e "Marius ou le fugitif" ("Marius, o fugitivo"), após terem sido encomendadas e com a intenção de distribuir uma continuação de "Os Miseráveis".

A visão comercial foi nítida, já que no ano seguinte seria comemorado o bicentenário do nascimento de Victor Hugo, cuja obra mais conhecida foi alvo de muitas versões ou adaptações, como um musical com o mesmo nome que estreou em Paris em 1980 e que fez turnê ao redor do mundo.

Na sexta-feira, o Tribunal de Apelação de Paris decidiu que nenhuma das duas obras de Cérésa constitui um atentado à obra do grande escritor francês, nascido em 1802 e considerado o autor de um verdadeiro monumento literário nacional.

Com isso, terminou uma longa batalha entre os herdeiros de Hugo e a editora Plon, pois Pierre Hugo, descendente do autor, considerou que as obras de Cérésa descaracterizam totalmente o original.

Embora, inicialmente, a Justiça tenha respaldado os interesses da editora, os herdeiros apelaram e obtiveram a proteção desejada quando, em 31 de março de 2004, foi emitida uma sentença contra as obras de Cérésa, consideradas um ataque ao "direito moral" de Victor Hugo.

Mais tarde, como lembrou o jornal "Le Figaro" em uma análise da novela judicial sobre a "memória" dos protagonistas de "Os Miseráveis", a Justiça usou declarações do próprio Victor Hugo.

O imortal autor chegou a dizer, sete anos antes de sua morte, que o "herdeiro" de um escritor é "o domínio público", e não o que leva seu próprio sangue.

Os advogados de Plon lembraram que o próprio descendente do escritor não respeitou muito a herança quando permitiu o lançamento de um perfume com o nome "Hugo".

A sentença pronunciada agora pelo Tribunal de Apelação de Paris indica que, no caso das duas obras que dão continuidade à trama de "Os Miseráveis", Cérésa não pode ser acusado de "não ter respeitado a construção" do original, que se baseia em "variadas disgressões filosóficas e históricas".

Os magistrados consideram, pelo contrário, que Cérésa é "livre para seguir uma expressão pessoal, que não apela necessariamente ao conjunto de registros que mobiliza Victor Hugo".

Além disso, em sua decisão, lembram que o autor encarregado pela editora Plon de fazer voltar à vida os protagonistas da grande obra de Hugo "também é livre para fazer evoluir em situações novas os personagens a que dá nova vida".

Cérésa é um jornalista e escritor de 55 anos, colaborador do "Figaro" e do "Le Nouvel Observateur".

A editora Plon publicou do autor os livros "Les Trois Hussards" ("Os três hussardos"), "La Terrible Vengeance du Chevalier D'Anzy" ("A terrível vingança do cavaleiro d'Anzy") e "Les Enfants de la Révolution" ("Os filhos da Revolução", em duas partes).

A editora, após saber da decisão do Tribunal de Apelação de Paris, expressou sua satisfação pelo que considera uma sentença que evidencia que Cérésa "nem transgrediu a vontade de Victor Hugo nem descaracteriza o espírito de 'Os Miseráveis'".

É uma decisão, afirmou a Plon, "capital para a liberdade de expressão, à criação literária e artística e à livre circulação de idéias". EFE jam/db

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