Após fracasso de Doha, Índia e EUA negam ruptura

Após o fracasso na Rodada Doha, representantes da Índia e dos Estados Unidos disseram que não querem perder o foi discutido em Genebra durante nove dias e negaram que tenha havia uma ruptura no processo. As divergências entre os dois países foram apontadas como o principal motivo para o fim das negociações.

BBC Brasil |

O ministro de Comércio da Índia, Kamal Nath, pediu que a suspensão das negociações seja tratada "como uma pausa, não uma ruptura", enquanto que a representante comercial dos Estado Unidos, Susan Schwab, defende que a rodada passe por um "período de reflexão".

"Provavelmente jogamos a bola mais longe nos últimos dez dias que nos últimos oito anos. Não é uma boa idéia abandonar o acordo", afirmou Schwab, que prometeu transmitir essa opinião a Lamy. "Enquanto isso, os Estados Unidos mantêm suas ofertas. Se outros estiverem preparados para ir em frente e responder a essas ofertas, aqui estaremos."
Ao entrar na sala de imprensa para dar sua coletiva, o indiano Nath cruzou com a americana e lhe disse algumas palavras.

Em seguida, o ministro indiano afirmou aos jornalistas que ambos os negociadores estão dispostos a seguir negociando suas diferenças. "Convidei ela para almoçar logo mais."
Decepção
As negociações da Rodada Doha foram oficialmente encerradas na terça-feira após mais de cem horas e nove dias de intensas reuniões. O principal problema foi a divergência entre Estados Unidos e Índia em relação a um mecanismo de salvaguarda, previsto no acordo, que permitiria aos países em desenvolvimento subir tarifas aduaneiras para se proteger de um surto de importações que possa prejudicar sua segurança alimentar.

O fim das negociações, que se pressentia no clima tenso que predominava na sede da Organização Mundial do Comércio (OMC), foi anunciado pelo diretor-geral da instituição, Pascal Lamy.

"Foi um fracasso coletivo, mas as conseqüências não serão as mesmas. Para os países em desenvolvimento, a perda desse acordo significa perder uma oportunidade de conseguir que os subsídios internos nos países ricos fossem revisados", afirmou o comissário de Comércio da União Européia, Peter Mandelson.

A seu lado na sala de imprensa, a comissária européia de Agricultura, Marianne Fischer-Boel, visivelmente emocionada, sentenciou que "o mundo será mais imprevisível sem esse acordo".

Mandelson destacou o trabalho de sua equipe a favor do acordo e lembrou que enfrentou muitas críticas dentro de casa em relação às concessões que fez com o objetivo de facilitar o acordo e elogiou a postura do ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim, nas negociações.

Ao lamentar "profundamente" o resultado dessa semana de trabalho, o chanceler brasileiro defendeu que "se há um país que está fora desse jogo de culpa (pelo fracasso), esse país é o Brasil".

"O Brasil fez tudo o que podia para permitir esse acordo, inclusive abriu mão de interesses que eram seus. Estávamos dispostos a ceder mesmo em um tema que é de nosso interesse, como as salvaguadas", afirmou Amorim. "É um absurdo que tudo tenha acabado por uma questão de números (que definem as condições para a aplicação das salvaguardas)."
O ministro evitou apontar culpados para o naufrágio das negociações e disse que estava disposto a aceitar o que quer que fosse decidido entre Estados Unidos e Índia.

Para Pascal Lamy o fracasso foi "decepcionante", mas não foi completo."Tínhamos 20 temas para acertar, conseguimos fazê-lo com 18 e fracassamos ao chegar ao décimo nono. Se chegamos a acertar 18 temas, ficamos com esse material acumulado sobre a mesa para o futuro", insistiu.

O diretor-geral da OMC não mencionou o vigésimo tema: os subsídios americanos ao algodão, que poderiam ter sido os responsáveis pelo fim das negociações se o Grupo dos Sete tivesse conseguido superar a questão das salvaguardas.

Lamy afirmou que continuará "investindo na criação de um sistema comercial mundial melhor" e que tentará retomar a rodada, mas admitiu que ainda não sabe quando, nem como.

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