Após eleições, Ocidente mostra descontentamento com democracia em Belarus

Ignacio Ortega. Moscou, 29 set (EFE).- O Ocidente expressou hoje seu descontentamento com a falta de avanços democráticos em Belarus, ao considerar que as eleições parlamentares deste domingo no país não se enquadraram nos padrões internacionais.

EFE |

"Este pleito não cumpriu plenamente as obrigações da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE) de eleições democráticas", afirmou hoje Ann Marie Lizin, chefe da missão de observadores da Assembléia Parlamentar da OSCE, em coletiva de imprensa.

Nenhum candidato da oposição dos quase 70 que concorriam às 110 cadeiras da Casa dos Representantes (baixa) bielo-russa foi eleito, informou hoje a Comissão Eleitoral Central de Belarus.

Entre os eleitos, que deviam somar mais de 50% dos votos em sua circunscrição eleitoral, estão apenas altos funcionários, diretores de empresas públicas e outras figuras próximas ao presidente de Belarus, Aleksandr Lukashenko, no poder desde 1994.

Desta forma, se desvanecem as esperanças de Lukashenko de a União Européia (UE) e os Estados Unidos reconhecerem o resultado eleitoral e suspenderem as sanções internacionais impostas a Minsk desde 2006.

Com o objetivo de ganhar reconhecimento ocidental, Lukashenko, considerado por Washington o "último ditador da Europa", libertou todos os presos políticos e convidou quase mil observadores, em gestos que não foram considerados suficientes.

"Parece que esses gestos de boa vontade não foram entendidos corretamente" pelos funcionários eleitorais, assinalou Lizin.

A chefe dos observadores reconheceu que "houve melhoras no processo eleitoral", mas ressaltou que "se Belarus quiser realizar eleições plenamente democráticas no futuro, será necessário cumprir todas as exigências da OSCE".

Lizin também destacou que "o processo de apuração foi ruim ou insatisfatório em 50% dos casos".

"Um terço dos observadores destacou que não foram autorizados a supervisionar, e 40% se queixaram que não tiveram a possibilidade de acompanhar plenamente o processo de apuração", apontou.

Já a chefe da missão do Escritório para as Instituições Democráticas e Direitos Humanos (Odihr), Geert Hinrich Ahrens, se mostrou "decepcionado".

"Em agosto, quando viemos a Belarus, sentimos os ventos da mudança, o presidente Lukashenko fez declarações muito claras a respeito. Mas agora estou decepcionado, já que não vimos que solucionaram os problemas de transparência durante a campanha", disse.

Na mesma linha, o relator de direitos humanos da Assembléia Parlamentar da OSCE, Jesús López Medel, denunciou que as irregularidades afetavam principalmente a apuração.

"Houve pouca transparência. A apuração foi feita sem garantias.

Havia uma grande diferença entre o que diziam os protocolos e o resultado definitivo", contou Medel à Agência Efe por telefone.

Medel reconheceu que também houve "avanços" quanto à recepção dos observadores estrangeiros.

"Isso mudou. Não nos receberam com hostilidade como em 2006", apontou.

Por sua parte, a oposição democrática, que ontem à noite fez uma manifestação pacífica para denunciar a fraude, não reconhece o resultado eleitoral como legítimo por considerar que já estava decidido de antemão.

"Não havia intriga para a oposição nestas eleições. As 110 cadeiras foram concedidas a dedo há muitos meses", afirmou à Efe o líder do Partido Civil Unido (UCP), Anatoly Lebedko.

Para o opositor, "Lukashenko decepcionou as esperanças da UE, que acreditou ingenuamente nas promessas de mudança do ditador".

"Nada mudou desde as eleições presidenciais de 2006", cujo resultado - Lukashenko foi reeleito com mais de 80% dos votos - ainda não foi reconhecido pelo Ocidente, assegurou.

Lebedko adverte o Ocidente que se não houver avanços democráticos, estará condenando o futuro da oposição nas eleições presidenciais de 2011, nas quais Lukashenko já antecipou que tentará mais uma reeleição.

Segundo dados preliminares, a participação no pleito subiu para 75,3% do eleitorado, embora mais de um terço tenha votado antecipadamente, o que favorece a fraude, segundo a oposição.

Por outro lado, a presidente da comissão eleitoral, Lidia Ermoshina, afirmou hoje que não houve "queixas sobre o uso dos recursos administrativos" por parte das autoridades.

"O medo da mudança é o que explica o resultado obtido pela oposição. O povo bielo-russo teme perder o que já tem", declarou.

UE e EUA tinham prometido antes das eleições que suspenderiam as sanções impostas a Lukashenko, 30 altos funcionários do regime e várias empresas estatais, caso o pleito fosse considerado democrático. EFE io/wr/rr

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