Após dois anos, Bangladesh vota pelo retorno à democracia

Julia R. Arévalo Daca, 29 dez (EFE).

EFE |

- Em um ambiente festivo, embora com forte presença do Exército e outros órgãos de segurança, os eleitores de Bangladesh votaram hoje para o Parlamento que formará o novo Governo democrático do país, após um período de exceção de dois anos.

Grandes filas de eleitores se formaram na entrada dos centros eleitorais da capital Daca quando as urnas foram abertas, às 8h locais (0h de Brasília), em dia declarado feriado, o que facilitou a votação, pois descongestionou as normalmente cheias ruas da capital.

Quase sem tráfego de veículos a motor, só os carrinhos de pedais circulavam pelas ruas de Daca, junto aos cidadãos que iam a pé aos colégios eleitorais.

O presidente da Comissão Eleitoral, Shamsul Huda, se disse satisfeito pela "atmosfera festiva" e pelo desenvolvimento "pacífico" nas eleições, que esteve "esperando durante dois anos".

Huda disse que não se registrou "nenhum incidente adverso" embora admitisse que houve irregularidades que serão investigadas, segundo a agência "UNB".

Os meios de imprensa eletrônicos deram conta de pessoas que não puderam votar, pois seus nomes não apareciam nas listas, casos de intimidação na porta dos colégios - onde é tradicional os partidos colocarem militantes com propaganda -, de prisões por compras de votos e de 30 feridos em choques entre grupos rivais.

A eleição convocada para 22 de janeiro de 2007, após expirar o mandato da primeira-ministra Khaleda Zia, líder do Partido Nacionalista de Bangladesh (BNP), havia sido suspensa por causa de uma onda de violência entre seus partidários e os da Liga Awami, de sua rival, Sheikh Hasina.

O presidente Iajuddin Ahmed impôs então o estado de exceção, que durou até no último dia 17.

Em Bangladesh, as votações entram em seu período "sensível" no fechamento dos colégios, quando vão se conhecendo os primeiros resultados e cresce a animosidade entre militantes dos dois grandes blocos rivais do país, explicou à Agência Efe Sajal Sarkar, um observador bengalês da Fundação Khan.

"Embora religiosamente sejamos tolerantes, politicamente nos tornamos muito temperamentais", abundou Sanjee, membro da minoria hindu que cuida, junto com seu pai, da Igreja Armênia da Velha Daca, a poucos passos da formosa Mesquita das Estrelas.

A Efe constatou que, uma hora após o fechamento das urnas (16h locais, 8h de Brasília) numerosos grupos se formaram nas portas dos centros de votação, vigiados de perto por patrulhas do Exército, da Polícia ou batalhões especiais, enquanto se desenvolvia a apuração.

No centro de votação nº 37 da circunscrição Daca-7, o encarregado da apuração, Massoud Parvez, um assistente do Ministério de Arquitetura, disse à Efe que a transparência do processo impedirá desta vez que Hasina ou Zia questionem os resultados.

As duas líderes saíram das urnas, após votar, fazendo o gesto da vitória e declarações que questionavam essa transparência.

Os analistas esperam uma votação muito apertada, o que contribui para o temor de que a perdedora impugne o resultado a violência política volte às ruas.

Para evitá-lo, o regime interino mobilizou 600 mil membros das forças de segurança, entre eles 50 mil soldados do Exército.

O chefe do Exército, general Moeen U. Ahmed, disse, após votar, que confia em que ganhadores e perdedores saibam colaborar para levar o país à frente.

Bangladesh "não deveria estar inutilmente dividida", pediu o general, quem proclamou: "Todos queremos a democracia".

Hasina também disse confiar em que todas as forças políticas aceitarão o resultado das urnas e ocorrerá uma transferência pacífica do poder, mas também denunciou a compra de votos por parte de candidatos do bloco rival e se perguntou como pode "crer" então na limpeza das eleições.

A mesma retórica foi empregada por Zia, que denunciou intimidações a eleitores e lentidão na votação, mas garantiu que aceitará o resultado "seja o que for".

"Esperávamos que a Administração (interina) seria neutro, mas não o estamos vendo", alfinetou.

O chefe do regime interino, Fakhruddin Ahmed, defendeu que as eleições transcorreram "de forma geral, com justiça e pacificamente" e confiou em que a transição à democracia traga o estabelecimento de "uma boa governabilidade e desenvolvimento" a Bangladesh. EFE ja/jp

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