Após deixar abrigo, vítimas de enchente encontram casas destruídas

A dona de casa Tatiana Carvalho da Silva, de 26 anos, estava em um abrigo para as vítimas da enchente quando recebeu a notícia de que a casa de dois cômodos em que morava com outras sete pessoas da família em Trizidela do Vale, no Maranhão, havia sido destruída. Soube da notícia pelo povo.

BBC Brasil |

Disseram 'a tua casa caiu'", afirma Tatiana, que na semana passada, quando as águas começaram a baixar, foi pela primeira vez ver a pilha de escombros em que se transformou a construção de tijolos erguida por seu pai há 10 anos.

Tatiana, o marido, Edmilton Queiroz da Silva, de 30 anos, e os três filhos pequenos haviam abandonado o imóvel às pressas cerca de um mês atrás, quando o rio Mearim, que banha Trizidela do Vale, começou transbordar, deixando quase 90% das casas embaixo d'água."A água subiu de repente.

Começou a encher durante o dia, e às 21h a gente teve que sair de casa correndo", diz. "Foi um sufoco, com as crianças. Veio um carro da prefeitura nos buscar, mas tinha muita gente para sair, tivemos que esperar."Com cerca de 15,5 mil dos 18 mil habitantes da cidade afetados pelas enchentes, encontrar vaga em um dos abrigos também não foi fácil.

"Ia para um lugar, já tinha gente. Ia para outro, também já tinha gente. Até que teve um momento em que a gente se agasalhou lá no meio dos outros. A vaga era pequena, mas a gente queria era estar deitado", diz a dona de casa.

Tatiana diz que, com a saída às pressas, a família não conseguiu levar quase nada. Seu marido é pescador e só poderá voltar a trabalhar quando as águas do rio estiverem mais baixas. "Perdemos tudo", diz Tatiana.

Ondas

Na rua em que a família vivia, casos como esse são comuns. Segundo os moradores, além da enchente em si, as casas também foram danificadas por ondas provocadas por barcos que circulavam pelas ruas quando a água deixava somente os telhados à mostra.

Perto dos escombros da casa de Tatiana, a pescadora Maria Diana Rodrigues da Silva, de 25 anos, também conferia na semana passada as ruínas de sua casa de barro, localizada na beira do rio e uma das primeiras a serem inundadas. "Minha casa era uma casinha de taipa. Caiu todinha", diz. "Não sei o que vou fazer. Estou abrigada em uma igreja, mas já estão todos saindo, aos poucos. Só eu estou ficando, não sei para onde ir."

Ela e o marido são pescadores e estão sem trabalhar desde o início da enchente, há cerca de dois meses."A minha sobrevivência é o rio Mearim, dependo dele para comer e alimentar meus três filhos. Com a enchente, não tem como pescar", diz.As cheias são comuns na região do Vale do Mearim, mas a deste ano surpreendeu os moradores.

"Desde pequena moro nessa rua e sempre a gente sai (por causa das enchentes). Mas esta foi a maior que eu já vi", diz a pescadora Maria Dalvani Teixeira da Silva, de 39 anos. A água invadiu sua casa até o teto, e ela teve de se mudar ainda em março para um abrigo com o marido, também pescador, e os dois filhos.

Na semana passada, ao voltar para o imóvel, descobriu que um dos cômodos, feito de barro, havia "derretido"."Perdi quase tudo, até meus documentos. Nossa canoa arrebentou na enchente, ficamos dois meses sem poder trabalhar", diz.

A secretária de Ação Social de Trizidela do Vale, Cíntia Coelho Araújo, diz que esta foi a enchente mais longa na região e que muitas casas foram destruídas. Segundo ela, o município deve fornecer material de construção para quem perdeu o imóvel."Quando voltarem dos abrigos, essas pessoas vão ver que perderam tudo", diz a secretária.

No entanto, mesmo diante de tanta dificuldade, a maioria dos moradores parece enfrentar a situação com resignação."É claro que é ruim", diz a agricultora Eliene da Silva Brito, que permanece com a família em um abrigo improvisado em um ginásio enquanto sua casa de barro está inundada. "Mas 'mais ruim' era a gente ter morrido."

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