Após cúpulas, Brasil reforça relações bilaterais com Cuba

Eduardo Davis. Brasília, 18 dez (EFE).- O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o chefe de Estado de Cuba, Raúl Castro, afirmaram hoje que as cúpulas dessa semana na Costa do Sauípe demonstraram ao mundo que a América Latina fala com voz própria e não precisa de tutelas.

EFE |

Na visita oficial do cubano a Brasília, os dois líderes enviaram uma clara mensagem aos Estados Unidos e à União Européia (UE), responsabilizada pelos dois presidentes pela crise financeira.

Segundo Lula e Raúl, "após 200 anos de independência" América Latina e Caribe "começaram a se entender".

Com essas declarações, os dois aludiam às cúpulas do Mercosul, da União de Nações Sul-americanas (Unasul), do Grupo do Rio e da primeira da América Latina e do Caribe, realizadas essa semana no balneário da Costa de Sauípe, com a presença de representantes de 33 países.

Lula reiterou que "esses países se reuniam só quando os EUA permitiam", mas agora "por livre e espontânea vontade falaram e disseram que é preciso criar organismos multilaterais próprios, para não ir a Haia solucionar seus problemas".

Sobre a crise financeira, disse que "é uma oportunidade para repensar a ordem econômica atual e colocar outras formas de políticas econômicas e de desenvolvimento".

Raúl concordou, dizendo que "das desgraças é preciso tirar uma vantagem", que no caso da crise financeira é "acabar com a tutela mundial dos EUA e da UE".

O presidente cubano foi irônico ao saudar Lula no Palácio do Planalto, onde ao posar para os fotógrafos brincou e disse que fariam "como os políticos europeus, que dão a mão e sorriem".

Lula e Raúl também se referiram ao presidente eleito americano, Barack Obama, e exigiram dele uma nova política para a América Latina e o Caribe.

O presidente brasileiro foi além e emprazou Obama a "acabar" com o bloqueio a Cuba.

Obama "experimentará as diferenças do mandato que exercerá se tiver alguns gestos", declarou Lula, que também cobrou uma nova política para a América Latina, o Caribe e a África.

Ao pedir a suspensão do bloqueio a Cuba, o presidente brasileiro também disse que o "único mal" que a ilha fez "foi conquistar sua liberdade".

Segundo Lula, o Governo dos EUA "deve dizer qual é a razão para o bloqueio" e os "gestos" não devem ser de Cuba, que, segundo disse, "não tem que pedir perdão" pelo embargo econômico sobre si.

"Cuba não tem que fazer gestos. São os EUA que têm que fazer um gesto, porque foram os EUA quem impuseram o bloqueio, e o gesto (de Obama) deve ser dizer que o bloqueio acabou", afirmou.

O presidente brasileiro disse ainda que, na Cúpula da América Latina e do Caribe, encerrada ontem no balneário de Costa do Sauípe (Bahia), percebeu que em toda a região "há o consenso" de que as sanções contra Cuba devem acabar.

"A história dos mísseis soviéticos (posicionados na ilha no começo da década de 60) se acabou há 50 anos, e hoje o mundo precisa viver em paz, entender a diversidade e viver democraticamente", declarou Lula.

O presidente reiterou que "a vitória de Obama significa muito, porque não é pouca coisa um negro ser eleito presidente dos Estados Unidos". Porém, frisou, é preciso haver "uma diferença em relação à América Latina".

Em relação ao pedido de Lula para que o embargo a Cuba acabe, Raúl não demonstrou muita confiança em uma possível mudança de postura dos EUA em relação ao país após a posse de Obama, em 20 de janeiro.

"É preciso preparo, porque não há perspectivas para (o fim) do bloqueio", declarou o cubano.

Segundo Raúl, "Obama disse que o bloqueio será suavizado, mas que também será mantido", e isso, afirmou, é como a política do burro e da cenoura.

O presidente cubano declarou ainda que "50% dos cidadãos" cubanos nasceram "sob o bloqueio e as duras condições impostas" por ele, razão pela qual em Cuba todos estão "preparados", assim como estão para os furacões que a cada ano atingem o Caribe.

Além disso, Raúl negou que Havana vá fazer "algum gesto", já quem no caso do embargo econômico, "é um país pequeno e agredido", que é alvo de "uma incompreensível vingança contra um povo que nunca agrediu os EUA".

O irmão de Fidel Castro acrescentou, sem dar mais detalhes, que recebeu uma carta de um ex-presidente dos EUA anunciando "que mudanças se aproximam" e que, se o Governo americano tiver "alguns gestos, poderá haver (outros) gestos".

Raúl disse ter respondido que "a época dos gestos unilaterais em Cuba acabou", e que "os gestos agora têm que ser unilaterais", mas da parte dos EUA.

O líder cubano se alojou em uma casa de campo do Governo e, apesar de fazer uma visita oficial, foi recebido com as honras reservadas para as visitas de Estado.

Raúl retribuiu com palavras de carinho a Lula e ao Brasil, país que definiu como "o irmão mais velho" da América Latina.

O presidente cubano, que após o encontro fez um passeio por Brasília, disse que voltará a Havana "de madrugada", após um jantar que Lula oferecerá. EFE ed/rr

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