Igor G. Barbero Islamabad, 25 ago (EFE).

- A Liga Muçulmana do Paquistão-Nawaz (PML-N), liderada por Nawaz Sharif, abandonou hoje a coalizão de Governo acordada com o Partido Popular do Paquistão (PPP), formação da falecida Benazir Bhutto, uma semana após conseguirem juntos a renúncia do presidente Pervez Musharraf.

Em coletiva de imprensa após uma reunião do comitê central da PML-N em Islamabad, Sharif anunciou a retirada de sua formação do Executivo e disse que apresentará um candidato próprio para o pleito presidencial de 6 de setembro.

O candidato escolhido, que disputará o cargo com o líder do PPP e viúvo de Bhutto, Asif Zardari, é o ex-chefe do Tribunal Supremo Saeed-uz-Zaman Siddiqui, que em 1999 recusou jurar seu cargo perante o golpista Musharraf, que expulsou Sharif do Governo.

Segundo o ex-primeiro-ministro, a PML-N se viu "obrigada" a se retirar do Executivo após o descumprimento de acordos por parte do PPP.

"Tentamos todo o possível para salvar a coalizão para que a democracia florescesse no país, mas todos os esforços falharam", declarou Sharif.

"Inclusive tragamos a pílula amarga de tomar posse perante Musharraf, por insistência de Zardari", disse Sharif, que anunciou também que a PML-N desempenhará um "papel construtivo na oposição".

Sharif acusou Zardari de ter descumprido seu compromisso de restituir os juízes do Tribunal Supremo, expulsos em 2007 por Musharraf logo após a saída do ex-presidente do poder.

Zardari foi adiando esse compromisso até declarar, neste fim de semana, que os acordos não são, em política, "sagrados como o Corão" e podem ser modificados conforme as circunstâncias.

Com um argumento idêntico ao que Musharraf usou para destituí-los, o viúvo de Bhutto acusou os juízes de terem se politizado.

O presidente do colégio de advogados do Supremo e membro do PPP, Aitzaz Ahsan, declarou hoje que a paciência acabou e anunciou protestos contra seu partido no próximo dia 28.

A PML-N queria um candidato neutro para a Presidência, mas aceitou dar apoio a Zardari em troca da reabilitação dos juízes e do corte dos poderes do presidente, para que a Constituição permita dissolver o Parlamento.

Sidiqqui é o candidato neutro com o qual a PML-N espera entrar na disputa presidencial, para a qual a Liga Muçulmana do Paquistão-Quaid (PML-Q), partido que apoiou o regime de Musharraf, também deve lançar um candidato.

A PML-Q se reuniu hoje em Islamabad, pois o prazo para apresentar candidaturas expira amanhã.

Na primeira reação do PPP ao abandono de Sharif, o vice-presidente do partido, Amin Fahim, disse à emissora de televisão "Dawn" que "a aliança com a PML-N era antinatural e encontrou seu fim natural".

A PML-N era o principal aliado do PPP no Governo formado no final de março, após o pleito do mês anterior no Paquistão.

Outras duas formações minoritárias, o Partido Nacionalista Awami (ANP, formação laica e pashtun) e o religioso Jamiat Ulema-e-Islã (JUI-F), fazem parte do Governo.

O líder da ANP, Asfandyar Wali Khan, que apoiou a candidatura de Zardari como presidente, comentou hoje que "a retirada de Sharif não fortalecerá a democracia" paquistanesa.

O chefe da JUI-F, Fazlur Rehman, que ontem havia apoiado Zardari, condenou hoje suas declarações sobre o valor dos acordos políticos que, segundo ele, criaram um clima de desconfiança que torna mais difícil seguir na coalizão com o PPP, informou a emissora "Geo TV".

Em visita aos campos de Peshawar (norte) que abrigam parte dos 200 mil deslocados pelos combates entre Exército e insurgentes na região tribal de Bajaur, Rehman lembrou que seu partido entrou no Governo "com a condição de que as operações nas áreas tribais seriam cessadas".

O Governo calculou em 550 os talibãs paquistaneses mortos em Bajaur em três semanas de combates, que também causaram baixas civis. Há uma segunda ofensiva em andamento no vale de Swat, no norte do país.

Além disso, o Executivo fechou hoje a via de diálogo que tinha aberto com os talibãs, ao anunciar a ilegalização do Tehrik-e-Talibã Paquistão. EFE igb/ab/rr

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