Após confrontos, chefe da polícia do Equador renuncia

Freddy Martínez entrega o cargo depois de manifestações de policiais e soldados provocarem duas mortes e caos no país

iG São Paulo |

AP
Usando máscara de gás e em uma cadeira de rodas, Correa é retirado do hospital onde ficou por mais de 12 horas
O comandante da polícia do Equador, Freddy Martínez, renunciou ao cargo nesta sexta-feira, informou o porta-voz da corporação. A notícia é divulgada levante de policiais e soldados ter deixado dois mortos, de acordo com a Cruz Vermelha.

Um dia depois da explosão do conflito entre policias e simpatizantes do governo, militares cercaram a sede do governo equatoriano, onde o presidente Rafael Correa despachava documentos.

Os soldados armados com fuzis montaram um forte cerco em torno do Palácio de Carondelet, no centro colonial, e impediam a entrada inclusive de simpatizantes de Correa, que com bandeiras do movimento governista Aliança País tentavam se aproximar para manifestar seu apoio ao mandatário.

Os protestos começaram na quinta-feira quando centenas de policiais foram às ruas do país e tomaram vários quartéis, entre eles o maior de Quito, protestando contra um decreto ratificado pelo Congresso Nacional que acaba com os bônus de oficias de polícia e das Forças Armadas.

Eles também ocuparam, por várias horas, o aeroporto internacional da cidade. De Guayaquil, a maior cidade do país, vieram notícias de saques e assaltos a banco. Escolas e lojas foram fechadas e o governo declarou estado de exceção .

Ainda na manhã de quinta, Martínez tentou deter a ação de seus subordinados e pediu diálogo para encontrar soluções ao conflito, sem sucesso. Segundo a Cruz Vermelha, dois policiais morreram e mais de 70 pessoas ficaram feridas nos confrontos.

Presidente é atacado

Forças de segurança usaram bombas de gás lacrimogêneo para tentar conter os manifestantes no maior quartel militar de Quito. Ao chegar ao local, Correa foi recebido pelos policiais rebelados com ofensas e pedradas.

"Não daremos um passo atrás, se querem tomar os quartéis, se querem deixar os cidadãos indefesos e se querem trair sua missão de policiais, façam isso", afirmou Correa, diante de centenas de policiais.

"Senhores, se querem matar o presidente, aqui estou, matem-me se quiserem, matem se têm poder, matem se têm coragem, em vez de se esconderem entre a multidão", gritou o presidente, visivelmente irritado com a situação.

Uma bomba de gás lacrimogêneo explodiu a poucos metros do presidente, que foi rapidamente retirado do local por seus guarda-costas e levado para o hospital. Mais tarde, em uma entrevista a uma rádio, Correa afirmou que "policiais rebelados estão tentando entrar no meu quarto, pelo teto". "Se algo acontecer comigo, a culpa é deles", disse ele.

"Gostaria de dizer apenas que meu amor pelos equatorianos é infinito e seja onde estiver eu sempre amarei minha família. Sabia dos riscos e valia a pena, então não se preocupem", afirmou Correa.

Convocados por membros do gabinete de Correa, simpatizantes se dirigiram ao hospital "para resgatar o presidente", dizendo que havia "gente tentando entrar pelo teto para tirá-lo dali". No caminho, estes entraram em choque com policiais rebelados. Houve troca de tiros e dois policiais morreram. No total, Correa passou mais de 12 horas no hospital antes de conseguir ser resgatado.

Sem perdão

Após o resgate, Correa disse que " não haverá perdão " para os organizadores do levante. Falando a simpatizantes no Palácio de Governo em Quito, ele afirmou que os responsáveis serão castigados: "Mais do que nunca vamos acabar com estes entreguistas e levar a pátria adiante. Não haverá perdão nem esquecimento", disse.

Ele culpou partidos de oposição e acusou o ex-presidente Lucio Gutiérrez de ser o articulador dos protestos da polícia. "Os [agentes] de Lucio estavam infiltrados ali, incitando a violência", afirmou.

Gutiérrez, que está em Brasília, negou ter participação nos acontecimentos. Ele disse que a crise era "um autogolpe de Correa para criar uma ditadura".

Vizinhos

A imprensa local afirma que os protestos tiveram adesão de militares e policiais na cidade de Guayaquil, reduto da oposição a Rafael Correa, e em outras cidades. Em Quito, as principais vias de acesso à cidade foram fechadas.

A crise no país deixou os vizinhos em alerta. Os governos do Peru e da Colômbia fecharam a fronteira com o Equador e a companhia aérea chilena LanChile cancelou todos voos para cidades equatorianas.

Em entrevista ao canal de

AP
Policial ferido é visto em frente a um policial morto e coberto com a bandeira do Equador

TV Telesur, o presidente venezuelano Hugo Chávez, disse ter conversado por telefone com Correa, um dos maiores aliados na região. Chávez disse que Correa havia sido "sequestrado". "Neste momento, o presidente corre risco de vida. Ele não vai ceder, está disposto a morrer", afirmou.

Divisões

Há sinais de divisão entre os militares. O Chefe do Comando das Forças Armadas do Equador, Ernesto González, pediu o fim do levante e disse estar subordinado ao presidente. "Vivemos em um Estado de direito e estamos subordinados a mais alta autoridade, que é o presidente da República. Vamos acatar tudo o que o governo decidir."

Diante da crise, Correa poderá dissolver o Congresso, nas próximas horas, utilizando um mecanismo legal chamado "morte cruzada" que permite o fechamento do Parlamento e a convocação de eleições antecipadas para Presidente e para o Parlamento.

O vice-chanceler equatoriano, Quinto Luccas, disse ter alertado os governos da região - em especial Brasil, Venezuela e Argentina - sobre a crise política no país, pedindo ações em defesa da ordem constitucional. "Não estamos pedindo a defesa do governo e sim da democracia equatoriana", afirmou Luccas.

De Porto Príncipe, onde realiza visita oficial, o ministro de Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, telefonou para o chanceler equatoriano para expressar "total apoio e solidariedade do Brasil ao presidente Rafael Correa e às instituições democráticas equatorianas".

A União de Nações Sul-Americanas (Unasul) condenou a rebelião em uma reunião de cúpula de urgência em Buenos Aires e destacou, na declaração final, "a necessidade de que os responsáveis pela tentativa de golpe sejam julgados e condenados".

Em sessão extraordinária do Conselho Permanente, a Organização dos Estados Americanos (OEA) aprovou uma resolução de apoio a Correa. Representantes dos países que compõem a OEA rejeitaram qualquer tentativa de desestabilização da ordem constitucional no país. O secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, ofereceu "pleno apoio" da entidade a Correa.

Condecorações

Os policiais recebiam condecorações a cada cinco anos, o que significava um aumento salarial, além de bônus anuais. O decreto elimina esses benefícios.

Entretanto, Miguel Carvajal, ministro de Segurança, disse que o decreto não afeta os salários dos policiais, ao explicar que os bônus antes recebidos a cada cinco anos passaram a ser nivelados e incorporados ao pagamento dos oficiais.

A seu ver, a crise está sendo gerada por uma campanha de "desinformação" que busca "utilizar" os policiais para obter fins políticos.

"Isso é uma campanha de desinformação. Há que se perguntar quem são os que têm interesse em desinformar", disse Carvajal. "Policiais, não se deixem manipular", acrescentou.

Com BBC e Reuters

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