Após afastamento de Bo Xilai, China vive drama em sucessão política

Escândalo evidencia divisões de caráter ideológico na elite governante e perda de confiança popular entre os chineses

iG São Paulo |

AP
Bo Xilai participa do Congresso Nacional do Povo em Pequim, na China (14/03)
Depois do afastamento do político Bo Xilai do Comitê Central do Partido Comunista da China – e suspeitas de envolvimento da mulher dele, Gu Kailai, no assassinato do empresário britânico Neil Heywood -, a reviravolta sobre o destino do ex-dirigente comunista, outrora cotado para ascender na hierarquia do regime, transformou a sucessão em um drama, e ainda pode fazer mais vítimas na alta cúpula da política chinesa.

Escândalo: China afasta Bo Xilai da direção do Partido Comunista

"Estamos todos assistindo a um grande drama encenado pelo alto escalão do partido", disse Dai Qing, escritora investigativa em Pequim e filha adotiva de um marechal do Exército Popular de Libertação. "O primeiro ato terminou, e estamos vendo o que acontece em seguida."

O presidente chinês, Hu Jintao, e outros líderes agora enfrentam um dilema: como evitar divisões entre os líderes na sua disputa pelos cargos ocupados por Bo no Comitê Central e no Politburo do Partido Comunista.

Ex-funcionários e outras fontes próximas à liderança dizem que as divisões na elite governante são geralmente de caráter ideológico, e que se misturam a um conflito escancarado entre alas esquerdistas e liberais.

Os partidários esquerdistas do carismático Bo o defendem como sendo o propulsor de um novo caminho necessário para a China. Já os artífices da queda de Bo estavam alarmados por sua ofensiva contra o crime organizado, que despertou acusações de abusos de poder generalizados, e pela nostalgia que ele demonstra pelas canções e outros traços culturais da era maoísta.

Riscos

As divergências na elite partidária geram o risco de desestabilizar o governo em um momento em que o PC enfrenta crescentes pressões e perde a confiança popular.

Em um sinal de preocupações que isso causa, o jornal Diário do Povo publicou editorial alertando para a necessidade de união dos dirigentes antes do congresso partidário deste ano que definirá os sucessores de Hu e sua equipe.

Bo era um político cuja campanha de combate à criminalidade e promessas populistas faziam parecer que os outros líderes não estariam cumprindo as necessidades básicas da população.

Dai disse que, embora por enquanto os líderes continuem unidos, a maioria ficou aliviada pela queda de Bo. Ela acrescentou, no entanto, que preocupações ainda maiores surgirão sobre a capacidade dos líderes manterem controle firme sobre o país em meio a reformas econômicas e políticas necessárias.

"Haverá um 18º Congresso Partidário suave sem Bo Xilai. A liderança central conseguiu unidade por causa disso", afirmou ela. "Mas aí temos de ver o segundo ato. Certamente ainda há divisões, porque cada um (dos líderes) tem seus próprios interesses e seus grupos de interesses para cuidar."

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Bo, 62 anos, e sua esposa não são vistos em público desde que a demissão dele como chefe do PC em Chongqing foi anunciada, em 15 de março. Em uma entrevista coletiva dias antes, Bo qualificou de "sujeira" e "absurdo" as acusações -então não especificadas - contra ele, sua mulher e seu filho, Bo Guagua, que estuda na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.

Bo foi envolvido em um escândalo após o ex-vice-prefeito e ex-chefe de polícia da cidade Wang Lijun, seu aliado, ir durante a noite ao consulado americano em Chengdu, em uma aparente tentativa de conseguir asilo político. Wang, que liderou uma operação contra o crime organizado que fez sua fama e a de Bo, foi substituído e é alvo de uma investigação policial por causa do incidente

A atual disputa na cúpula chinesa é a mais dramática desde 1989, na crise que se seguiu à violenta repressão contra protestos pró-democracia em Pequim.

*Com Reuters

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