Grandes e pequenas criaturas têm papel crucial na movimentação da água dos oceanos, aponta um estudo divulgado nesta quarta-feira, que confirma uma teoria formulada no século passado pelo neto do naturalista britânico Charles Darwin, que tem o mesmo nome do avô.

A chamada movimentação dos oceanos, responsável pela transferência de águas quentes e frias entre o equador e os pólos, assim como entre as profundezas geladas e ricas em nutrientes e o topo, que absorve a luz solar, tem um papel crucial para a biodiversidade marinha - e, como suspeitam os cientistas, para a manutenção do clima terrestre.

A noção de que peixes e outros habitantes do mar possam, de alguma maneira, contribuir significativamente para as correntes conforme se movem foi proposta pela primeira vez na década de 50 por Charles Darwin, neto do lendário pai da evolução.

A tese, no entanto, foi sumamente descartada pela ciência moderna.

Nos anos 60, experiências compararam a turbulência criada por criaturas marinhas com a movimentação geral dos oceanos. Os resultados mostraram que a água movimentada pelos peixes e até mesmo os pequenos redemoinhos iniciados pelo plâncton microscópico se dissipavam rapidamente na água densa e viscosa.

Diante destas evidências, as espécies marinhas pareciam contribuir em nada para a movimentação dos oceanos. A conclusão alcançada apontava ventos e marés com únicos responsáveis por este fenômeno, aliados à força gravitacional exercida sobre a Terra por seus vizinhos do Sistema Solar.

As jovens cientistas Kakani Katija e Joan Dabiri, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, porém, reabilitaram a hipótese levantada por Charles Darwin neto. Publicado na revista especializada britânica Nature, o estudo usa a pulsação suave das águas-vivas para provar seu ponto, a partir de um sistema que usa raios laser para medir o movimento da água.

Em um lago salgado da ilha de Palau, no oceano Pacífico, Hatija e Dabiri usaram roupas de mergulho para entrar na água e soltar tinta no caminho das águas-vivas. Em seguida, filmaram sua movimentação.

As imagens mostram que uma quantidade considerável de água fria "seguia" as águas-vivas em seu movimento vertical, que vinham do fundo gelado, em direção a camadas mais quentes da superfície.

Segundo as cientistas, os pesquisadores que estudaram a tese de Darwin na década de 60 estavam simplesmente olhando no lugar errado: ao invés de prestar atenção no deslocamento vertical da água, se focaram apenas nas ondas e redemoinhos - indicando que a água se movia junto com os animais.

O que determina a quantidade de água que é misturada é o tamanho e a forma do animal, sua população e seus padrões migratórios.

A agitação do mar é um fator do ciclo de carbono.

Na superfície, o plâncton "traga" dióxido de carbono (CO2) através da fotossíntese. Quando morre, seus restos ricos em carbono afundam gentilmente, e o carbono fica eficientemente armazenado no fundo, até ser trazido de volta à superfície por correntes marítimas.

William Dewar, da Universidade Estadual da Flórida, indica em um artigo na mesma edição da Nature que o trabalho de Hatija e Dabiri desafia o pensamento tradicional.

"Se a ideia geral de movimentação biogênica significativa sobreviver a um escrutínio detalhado, a ciência do clima experimentará uma mudança de paradigma", afirma.

mh/ap/LR

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